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Reflexões jornalísticas

Por Ângelo Henriques (Artigo publicado no jornal Cova da Beira)

“A Verdade Vos Tornará Livres” (João 8,32), foi o lema da mensagem do Papa Francisco para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais, ocorrido em Maio.

Dois filmes recentes trespassaram algumas das minhas temáticas de referência - o poder, as decisões nos bastidores, as mentiras de quem governa e o papel do jornalismo contemporâneo nesse cenário. Foram eles The Post e Mark Felt – o Homem que derrubou a Casa Branca.

Em The Post, filme baseado numa história verdadeira dos anos 70 do século passado, Spilberg conta-nos que o jornal Washington Post, quando estava à beira de entrar na Bolsa e ganhar algum fôlego financeiro após a morte do seu diretor, tem possibilidade de publicar um dos maiores segredos governamentais – os Pentagon Papers. Estes mostraram que vários presidentes dos EUA, com destaque para Johnson e Nixon, mentiram aos americanos sobre os fundamentos que conduziram à guerra do Vietnam. Entre silenciar a verdade ou publicar documentos secretos que salientavam os critérios obscuros que levaram à guerra, os responsáveis do The Post tiveram a coragem de nos mostrar a verdade, permitindo também que o jornal subisse vários degraus de credibilidade e de aceitação, no sempre acirrado mercado jornalístico, dominado à data pelo New York Times.

No filme O Homem que derrubou a Casa Branca, decorrido na mesma década da do anterior, o número dois do FBI, Mark Felt, pensa que irá assumir a cadeira do falecido e lendário Edgar Hoover. Contudo, a Casa Branca vai-lhe tirando o tapete, intrometendo-se na sua esfera de ação e impedindo-o de alcançar a chefia do FBI.

Amargurado, após 30 anos de bons serviços prestados, resolve entregar, sob anonimato, todas as informações do caso Watergate a dois jornalistas do Washington Post que passaram a conduzir uma investigação sem precedentes. O governo cai e o Presidente Nixon resigna em Agosto/1974.

Numa terra de fortes contrastes como é a América, em ambos so casos triunfou o poder do jornalismo através de profissionais competentes, com espírito de missão de informar com verdade e contra o silenciamento dos meandros obscuros do poder.

Hoje em dia, o bombardeamento de informação a que estamos sujeitos é devastador; com tantas e tão novas tecnologias, com o pulular das redes sociais e a rapidez estonteante com que as notícias circulam por todos os meios, como se comporta o jornalismo de hoje?

Salvo honrosas exceções, os bons jornalistas escasseiam.

A situação deficitária das empresas jornalísticas, o emagrecimento das redações, a precariedade crescente do trabalho de quem escreve, a falta de uma cultura profissional de exigência para com os seus públicos, conduzem a linhas editoriais delineadas sob um manto de interesses difusos e politicamente oportunistas, com o profissionalismo dos escribas a dar lugar à vassalagem política e clubística.

Quantas vezes, o verdadeiro trabalho de investigação é levado a cabo por blogues? Nesse sentido, o trabalho atual de uma redação confina-se, sobretudo, a retocar o texto de informações oriundas de agências de notícias, gabinetes técnicos de informação, fontes oficiais e institucionais, reduzindo, sobremaneira, o apuramento dos factos. Ou ainda, a promover a prévia condenação pública de quem não se consegue acusar com êxito em tribunal, prestando-se serviço aos instintos da população, mas não à justiça.

Se tivéssemos uma imprensa forte e capaz, com coluna vertebral e jornalistas como os do Washington Post, os casos do BPN, BES, dos contratos das PPPs rodoviárias, algumas privatizações, negociatas financeiras, etc., não teriam tido a repercussão negativa para milhares de depositantes, contribuintes e para o erário público.

Recentemente, sobre os casos de justiça nas suas mais diversas vertentes em que se encontra envolvido o SL Benfica, houve jornais que nada publicaram (nem publicam), caladinhos e ordeiros, incapazes de um contrato de lealdade com os cidadãos; desse modo, são cúmplices de uma realidade tenebrosa que já se ia murmurando nos bastidores lisboetas e que se conseguiu instalar nos subterrâneos do futebol, com repercussões consideráveis e bem negativas na política, na comunicação social e na justiça, como nunca tinha ocorrido.

Recordando os dois filmes iniciais a que poderia juntar um outro, “Os Homens do Presidente“, para uma completa trilogia sobre o que deve ser a investigação jornalística com coragem e sem submissão, é necessário “navegar noutras águas”, onde seriedade, rigor e exigência campeiem, a fim de que os cidadãos nas suas liberdades e garantias, possam dispor de uma informação livre e independente, sem cartas marcadas ou viciadas pelos corredores do poder, pelas relações promíscuas entre poder político e poder económico, pelos meandros da impunidade e pela inoperância da justiça.

     
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