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Carta aberta ao presidente do BPI

Tendo em conta o conteúdo do editorial da revista Nortada de Julho, e que de resto mereceu a minha melhor atenção, decidi manifestar e assumir, criticamente como cidadão bancário, um conjunto de considerações que entendo indispensáveis ao reforço do sentido crítico e pertinente do colega Firmino Marques. Sem rodeios, subscrevo-o e vou aqui justificá-lo!

É que esta “coisa” de já não se ter vergonha de relevar em fóruns o cinismo/petulância (porque ficará bem no retrato de um conservadorismo passadista, ou talvez querer empurrar os bancários para um beco social) tem que ser desmistificada, desmontada por quem, crescentemente, se vai sentindo cada vez mais escorraçado da dignidade pela qual os bancários tanto lutaram desde 1934! E a este aforismo que o sr. presidente do BPI quer para o seu banco (e se a moda pega?) temos que responder com o exercício (no mínimo) do nosso direito de cidadania, dizendo-lhe que os bancários não ganham assim tanto como procura fazer crer no seu discurso “moderno”.

Estará a banca perante uma verdadeira aporia? Claro que não, pois o Estado, nas horas difíceis engendradas pelas várias administrações da banca, parece estar disposto a dar uma “ajudinha”! Pois assim também os bancários reformados (que qualquer dia são em maior número que os do activo) “dormem” mais descansados e tranquilos; vêem desta forma a sua sobrevivência financeira mais almofadada, porventura mais “garantida”. Convém aqui fazer lembrar aos trabalhadores bancários (no activo até Janeiro de 2009 – e reformados) que as suas pensões de reforma continuam a depender da rentabilidade das instituições onde gastaram toda uma vida.

Acredito que o sr. presidente do BPI pague bem, quiçá principescamente em pacote remuneratório flexível e subsídios, a uma minoria de elites profissionais classistas que se enquadram em escalões de vencimentos acima, e muito acima, de 1.800 euros mensais! E são alguns destas elites profissionais que coagem, pressionam e escravizam os seus subordinados, roubando-lhes (não é o termo mais puritano, refira-se) o direito, como refere o colega Firmino Marques, de serem pais e maridos atentos, parceiros de sociabilidades que enriquecem o ser humano e com elas construir-se um mundo mais solidário e mais bem formado, ética e moralmente! Em nome da transparência, da ética e da moral que tanto releva em discurso para consumo mediático, diga lá, sr. Administrador, quanto aufere e que percentagens são afectadas em salários base, subsídios regulares e irregulares destinados aos órgãos sociais e restantes trabalhadores!

Para justificar as razões dos 0,9% que oferece aos seus colaboradores (que já terão “medo do medo”, como nos ensina o autor José Gil) e de alguma forma ampliar os seus conhecimentos, devo relevar que cerca de 80% dos trabalhadores na banca trabalham mais de 7 horas diárias, encontrando-se no seio destes muitos que chegam a dedicar ao banco 50 horas semanais, centrando-se a maioria na casa das 9 horas diárias!

E como se isto já não bastasse, acresce a este desumanismo, despudorada e imoral estratégia dos modernos administradores bancários, o reivindicarem ainda mais flexibilidade, que fomenta a precariedade e a interiorização do medo de perder o emprego! Por tudo isto, aí temos a exploração da mão-de-obra barata e outra (mesmo muita) não remunerada! Dizem-no trabalhadores que entrevistei e 77% de uma pequena amostra construída, que também o revela! Simplesmente, sr. administrador Fernando Ulrich, pratica-se a exploração de salários baixos e trabalho suplementar não pago! Não há quaisquer dúvidas! Sabia ainda o sr. administrador que, no contexto laboral da banca (que, na perspectiva de V. Exa., parece ser o do “país da Alice das maravilhas” da banca), cerca de 51% dos bancários no activo e a grande maioria com o grau académico de licenciado não auferem mais que 1.500 euros mensais? Que apenas 20% se situa entre os 1.500 e 1.800 euros/mês? Restam-nos então 28% que usufruem de um rendimento superior a 1.800 euros mensais! Se aqui recorrêssemos à medida de distribuição da riqueza produzida, como ficaríamos todos (?) boquiabertos! Ficará para uma próxima conversa, se a isso me for dada a oportunidade!

Por agora, fiquemonos por aqui, pois há entidades bancárias que têm medo que os trabalhadores façam reflectir, até de uma forma anónima, a verdadeira dimensão sócio-laboral que os caracteriza e lhes é imposta! Não obstante tudo isto, mas para elevarmos um pouco mais a auto-estima e orgulho capitalistas do sr. administrador Fernando Ulrich, devo informar que o “pessoal bancário”, mesmo a ganhar bem (como faz crer), só 38% é que diz estar satisfeito, pois a grande mole humana bancária está mesmo insatisfeita (62%). E é por tudo isto, provavelmente, que dizem ser o seu poder aquisitivo médio e baixo (88%); e, já agora, falemos do grau de satisfação e motivação em relação à carreira profissional, pois trata-se de um indicador muito relevante e que muito marca a atitude social do bancário face ao seu estado de alma sócio-profissional!

Ou se resigna porque tem medo e não exerce assim, individualmente ou pela via do seu sindicato, o seu direito de cidadania, ou então revela-se insatisfeito e propõe-se corporizar uma qualquer acção colectiva sindical! É que 29% dizem-se insatisfeitos, logo nem tudo são rosas, como pretende fazer crer o sr. administrador do BBPI. Então, “palavras para quê?” Foi assim que o editorial da revista Nortada começou e terminou! E é também assim que termino este meu modesto contributo para aplaudir e reforçar o pertinente sentido crítico do editorialista Firmino Marques. Apenas forneci alguns dos elementos que recolhi, primeiro por um questionário anónimo e confidencial, e, depois, por entrevistas e observações realizadas.

Por conseguinte, e face ao que aqui produzi, resta-me pedir publicamente aos senhores banqueiros (e em particular ao sr. dr. Fernando Ulrich) que, em nome de uma cultura e valores humanistas, se promova mais solidariedade (e não o individualismo puro e duro, como é salientado pelos números e práticas) e que se permita que os bancários possam apreender e cultivar tais valores e referências de ética e que os façam deste modo reproduzir nos seus descendentes em contexto familiar harmoniosamente construído. Quem sabe não estará aqui a solução, ou parte dela, que obstaculize a emergência futura de casos (BCP, BPN e BPP) como os que têm ensombrado a banca e o horizonte e perspectivas de vida de milhares e milhares de bancários e suas famílias.

Marques Lameiras
Sócio do SBN

 

     
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