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Infertilidade conjugal e Medicina da Reprodução

Podemos definir infertilidade conjugal como a incapacidade de um casal conceber um filho após um ano de relações sexuais não protegidas (ou seis meses quando a mulher tem mais de 35 anos), ou a incapacidade de manter a gravidez até ao termo. A infertilidade é uma doença que atinge 15 a 20% da população portuguesa em idade reprodutora e constitui um problema crescente no país e no mundo. As causas da infertilidade residem tanto no homem como na mulher e são variadas.

De uma forma simplificada podemos afirmar que o tipo de vida da sociedade moderna (o stress ocupacional, o consumo excessivo de álcool, gorduras, tabaco, drogas, poluição e contaminação atmosférica, etc.) contribui para o aumento da prevalência da infertilidade, já que afecta a quantidade e a qualidade dos óvulos e dos espermatozóides. Os factores genéticos, as doenças sexualmente transmissíveis (existência de múltiplos parceiros sexuais) ou, simplesmente, o facto de muitos casais, por razões sócio-económicas, adiarem a primeira concepção, fazem com que diminuam as possibilidades de uma gravidez espontânea.

Ao contrário do que se acreditava no passado, a infertilidade não é um problema exclusivo da mulher. Aproximadamente 30% das causas de infertilidade estão relacionadas com factores femininos e 30% com factores masculinos. Em 40% dos casos ambos os factores estão presentes, sendo geralmente um mais grave do que o outro. Algumas causas da infertilidade conjugal podem ser tratadas com sucesso por meio de procedimentos e técnicas simples, como a inseminação artificial, a terapêutica hormonal e pequenas cirurgias.

No entanto, é importante frisar que os procedimentos de baixa complexidade não apresentam taxas de sucesso maiores que 20%, pelo que se torna necessário, muitas vezes, recorrer a técnicas de reprodução assistida e realizadas em laboratório, cujas taxas de êxito atingem, nos melhores centros, cerca de 50%.

O nascimento de Luísa Brown em 1978, em Inglaterra, a primeira criança concebida após fertilização “in vitro” e transferência de embriões (realizada pelos Prof. Edwards e Steptoe), marcou o início de uma era de extraordinário progresso no entendimento e no tratamento dos problemas relacionados com a fertilidade humana.

A fertilização “in vitro”, muitas vezes denominada por FIV e conhecida vulgarmente por “bebé-proveta” deve-se ao facto de a fecundação do óvulo pelo espermatozóide ocorrer fora do corpo feminino. É efectuada em laboratório, ou seja, “in vitro”. Os embriões resultantes dessa fecundação são posteriormente transferidos para o útero. As técnicas desenvolvidas posteriormente – ICSI (ou microinjecção) e DPI (diagnóstico pré-implantatório) – ampliaram as suas indicações e permitiram o seu uso para o tratamento da infertilidade de variadas etiologias.

Gostaríamos de salientar que um dos avanços mais importantes destas técnicas permite obter embriões sem doenças genéticas extraordinariamente incapacitantes, como por exemplo, a paramiloidose, ou doença dos pezinhos, tão vulgar especialmente nas zonas piscatórias do Norte de Portugal.

Neste momento existem no nosso país vários centros de procriação medicamente assistida, públicos e privados, muitos conceituados, que realizam as técnicas mais actualizadas. Porém, a especialidade da Medicina da Reprodução e os tratamentos da infertilidade conjugal têm sido pouco apoiados pelo Estado português. Temos, contudo, a esperança que a curto prazo a Rede Nacional de Infertilidade passe dos estudos aos actos e concretize a forma de apoiar estes tratamentos, que são muito dispendiosos.

Existe também no nosso país a Associação Portuguesa de Infertilidade (API), constituída legalmente em 20 de Maio de 2006, que tem por missão informar, apoiar e defender as pessoas inférteis na tentativa de melhorar a sua qualidade de vida. Uma última palavra de esperança e incentivo aos casais inférteis – que, através de acesso fácil, rápido e em tempo útil aos cuidados da Medicina de Reprodução, continuem a lutar para que possam realizar as suas legítimas expectativas.


Maria Adelina Vasques Lopes Nunes
ex-coordenadora da Unidade de Medicina da Reprodução do Hospital de S. João

 

     
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