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Da insuficiência venosa crónica às varizes dos membros inferiores

A circulação venosa dos membros inferiores de um indivíduo normal caracteriza- se pela integridade e eficácia das funções principais de retorno venoso, de termorregulação e da capacidade de adaptação às situações solicitadas. Os diversos factores do aparelho venoso (características da parede, extensibilidade, elasticidade e contractibilidade) participam num mecanismo que mantém o seu equilíbrio independentemente da posição do indivíduo, da sua actividade e da temperatura.

As veias têm como principal função assegurar o retorno do sangue das áreas mais distais do organismo até ao coração. Simplificadamente, existem dois sistemas de drenagem venosa nos membros inferiores: o superficial (veias da pele e tecido subcutâneo -veias safenas interna e externa) e o profundo (veias subaponevróticas, localizadas nas zonas mais profundas dos membros, paralelas às artérias do mesmo nome). Estas últimas são responsáveis pela drenagem de cerca de 90% do sangue venoso dos membros.

Estes dois sistemas são dotados de aparelhos valvulares no seu interior que após o seu encerramento impedem a existência de refluxo sanguíneo. A doença venosa ocorre especialmente quando existe refluxo (inversão da corrente sanguínea), traduzindo-se em excesso de pressão venosa ortostática e ortodinâmica, distalmente mais acentuada (abaixo do joelho) que favorece um insidioso processo de alteração da parede venosa e a formação de circulação colateral mais ou menos ectasiada (varizes).

Assim, na origem da insuficiência venosa é determinante a existência de um factor responsável pela descompensação do equilíbrio circulatório, que pode ser de origem genética e/ou secundária a um factor desencadeante. A doença venosa crónica é um grave problema de saúde pública, com inúmeras implicações socioeconómicas que apresenta uma prevalência de 20- 35% na população activa e 50% nos aposentados, com especial incidência no sexo feminino (estudos multicêntricos relatam sintomas em cerca de 50% das mulheres).

A prevalência de doentes com patologia venosa apresenta um encargo socioeconómico que pode ser calculado baseado no custo dos cuidados prestados (consultas, terapêuticas médicas e cirúrgicas), no absentismo ao trabalho, bem como no tratamento das complicações inerentes a esta doença (infecciosas, lesões tróficas ou ulceradas).

O factor genético é responsável pela predisposição familiar, no entanto os factores secundários (ortostatismo prolongado, a posição de sentado e imóvel, sedentariedade, excesso de peso, gravidez, uso de terapêuticas hormonais e hábitos alimentares) parecem desempenhar uma influência fundamental no desenvolvimento dos sintomas. Uma vez desencadeada, a insuficiência venosa traduz-se num sofrimento venoso que secundariamente acarreta alterações tecidulares profundas e superficiais, com a inerente repercussão sintomática e anatómica.

A partir da lesão ou factor desencadeante inicial, toda a insuficiência venosa evolui insidiosamente desde as suas formas iniciais à doença varicosa propriamente dita e suas potenciais complicações. A sintomatologia mais vulgar, preferencialmente no sexo feminino consiste em queixas subjectivas e de difícil caracterização, sendo frequente a sensação de peso ou cansaço, ligeiro edema maleolar, bem como prurido e cãibras nocturnas.

A doença varicosa consiste no aparecimento de dilatações (cordões) venosas clinicamente evidentes em diferentes localizações nos membros inferiores, consoante o território venoso afectado e a localização da insuficiência valvular e respectivo refluxo sanguíneo. Além das telangiectasias ou aranhas vasculares que fundamentalmente apresentam um inconveniente estético e cosmético, a doença varicosa propriamente dita apresenta um conjunto potencial de complicações que podem de forma aguda ou tardia alterar o curso normal desta doença, com inúmeras consequências de gravidade variável.

As complicações agudas mais frequentes são: a ruptura venosa – com hemorragia espontânea ou pós traumática de gravidade diferente consoante a sua intensidade; a trombose, vulgarmente designada por flebite, com dor e sinais inflamatórios locais sobre trajectos varicosos, que pode ser de pouca intensidade e localizada ou progredir proximalmente complicando-se com trombose do leito venoso profundo, ou mais raramente com uma embolia pulmonar.

As complicações tardias são reflexo directo do sofrimento cutâneo iniciado pela hipertensão venosa crónica distalmente (normalmente na face interna do calcanhar) com aparecimento de alterações pigmentares na pele, que lentamente evoluem para uma dermatose progressiva eventualmente complicada pelo desenvolvimento de lesões tróficas (úlcera varicosa). A infecção bacteriana local pode ser o factor agravante que impede a cicatrização eficaz destas lesões e culmina num estado patológico de franca incapacidade e deterioração significativa da qualidade de vida.

O diagnóstico desta doença é manifestamente dependente da avaliação clínica, no entanto o ecodoppler dos membros inferiores permite uma correcta exploração e mapeamento venoso, essenciais na localização dos pontos de refluxo, bem como na caracterização de locais de trombose recente ou antiga, factores determinantes no planeamento terapêutico (médio e/ou cirúrgico) eficaz. As atitudes terapêuticas visam essencialmente a melhoria do aspecto cosmético, o fundamental alívio dos sintomas e também essencial profilaxia das complicações.

Consoante e conforme o tipo de varizes apresentadas, e de acordo com o estado e forma clínica em causa, conselhos higieno-dietécticos, uso de flebotónicos, ou procedimentos cirúrgicos (esclerose ou cirurgia de varizes) podem ser recomendados e explicados ao doente de forma a rapidamente tentar alterar e interromper a história natural desta doença.

As terapêuticas cirúrgicas actuais, importantes no tratamento de alguns estadios de varizes e insuficiência valvular, muito têm mudado nestes últimos anos, com a realização de técnicas minimamente invasivas e pouco agressivas, permitindo um pós operatório simples, pouco ou nada incapacitante, bem como um retorno precoce à vida normal com qualidade de vida francamente melhorada.


Paulo Pimenta
Especialista em angiologia e cirurgia vascular no Serviço de Cirurgia Vascular e no
Departamento de Transplantação do Hospital Geral de Santo António

 

     
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