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Director de Cirurgia do Santo António dá entrevista à Nortada

Luis Aguiar – Sabemos que tem um notável currículo profissional e académico. Pode resumir-nos o seu trajecto, indicando-nos também as funções que actualmente desempenha?
Gomes de Freitas – Neste momento sou director do Departamento de Cirurgia do Centro Hospitalar do Porto – Hospital de Santo António. Sob a minha Direcção estão os Serviços de Cirurgia Geral, Cirurgia Vascular, Urologia e Cirurgia Plástica. Sou ainda professor catedrático convidado do Curso de Medicina do ICBAS/HSA, regente da disciplina de Cirurgia I e coordenador do programa do ensino da cirurgia nesta faculdade. Licenciei-me em 1978 na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Depois fiz todo o meu percurso profissional e académico no ICBAS/HSA excepto no ano de 1981, em que trabalhei no concelho de Esposende, no âmbito do Serviço Médico à Periferia. Da minha actividade profissional como cirurgião geral ressalto que concluí a especialidade em 1989 com a classificação de 18,7 valores, obtendo o grau de assistente hospitalar de Cirurgia Geral. No mesmo ano concluí as provas do exame para obtenção do título de especialista de Cirurgia Geral pela Ordem dos Médicos.
Em 1985 adquiro o grau de consultor da carreira médica hospitalar de Cirurgia Geral, por concurso público. Em 1999, presto provas públicas para obtenção do grau de chefe de serviço de Cirurgia Geral. De 1998 a 2000 fui responsável pela Unidade de Cirurgia Extra-Digestiva do Serviço de Cirurgia II.
De 2003 a 2009 fui director do Serviço de Cirurgia 2 do HSA, ano em que inicio o processo de reestruturação da cirurgia geral do HSA, procedendo à criação e organização de um único serviço em substituição dos três existentes até então.
Para além de toda esta actividade clínica, de ensino da cirurgia, de gestão e organização, pertenci à direcção médica do HSA de 2000 a 2003, sendo adjunto do director clínico, fui presidente da Comissão de Coordenação Oncológica do HGSA e director do Departamento de Urgência, procedendo à reestruturação deste, tendo, nomeadamente, introduzido no hospital o sistema de triagem de Manchester para doentes urgentes, metodologia que foi posteriormente adoptada pelo Ministério da Saúde para todos os hospitais portugueses.
Este mini-currículo não é, no entanto, a descrição de toda a minha actividade clínica, pois sempre continuei a tratar doentes como até hoje, que é, afinal, a grande motivação de se ser médico.

LA – Na sua actividade profissional como cirurgião geral tem igualmente alguma área a que se dedique ou, por outras palavras, dedica- se mais a alguma cirurgia em particular?
GF – Em 1991, a Direcção do Departamento de Cirurgia procede a uma reestruturação dos três serviços de Cirurgia Geral, ficando cada um deles responsável pelo tratamento de patologias específicas.
Fiquei a trabalhar no serviço de Cirurgia 2, que estava incumbido de tratar os doentes com a chamada cirurgia extra-digestiva, que englobava o tratamento de doentes com patologias da cabeça e do pescoço, nomeadamente a oncológica, patologia endócrina como doenças da glândula tiróide e paratiróides, a mamária, da pele, nomeadamente o cancro, dos tecidos moles na sua vertente benigna e maligna, entre outras menos frequentes.
Não descurando o tratamento das patologias digestivas, posso dizer que estas são algumas das minhas áreas preferenciais.

LA – Qual o papel que a cirurgia laparoscópica tem neste momento e que vantagens apresenta em relação à cirurgia convencional?
GF – As cirurgias mini-invasivas, não só a laparoscópica, porque também existe cirurgia toracoscópica, do pescoço e do retroperitoneu, têm como objectivo proporcionar aos doentes a mesma técnica cirúrgica, os mesmos resultados terapêuticos, com menos agressão, menos dor pós-operatória, mais rápida recuperação para a vida diária e para o trabalho.
Também ao proporcionar incisões mais pequenas na pele têm implicações estéticas para os doentes. Neste momento investiga-se a realização de cirurgias por orifícios naturais, como a boca, vagina e bexiga, conhecidas pela abreviatura NOTES.
Também alguns centros internacionais estão já a realizar cirurgias com a ajuda de robôs, que, para além de permitirem maior precisão do gesto cirúrgico, permitem a realização de cirurgias à distância. Pensa-se que, para além de outras vantagens, esta tecnologia poderá ser importante quando o homem estabelecer uma base em Marte.

LA – Todos os doentes podem – para determinada patologia – usufruir da cirurgia laparoscópica, ou há condicionalismos para a sua execução?
GF – A resposta é “não”, pois os doentes têm de ser operados sob anestesia geral, o que poderá não estar indicado ou até contra-indicado nalguns casos.
No entanto, caminha-se para a possibilidade de realização de quase todas as cirurgias por via vídeo-assistida. Em algumas patologias, como o cancro do recto, ainda estão a realizarse estudos comparativos sobre o benefício de uma técnica em relação à outra.
O que me parece neste momento é que cada vez menos existe o cirurgião geral à “antiga”, que fazia de tudo. Dado os últimos grandes avanços tecnológicos e do conhecimento médico, a necessidade de aprendizagem e actualização permanentes para acompanhar estes avanços e tratar cada vez melhor os doentes segundo a nossa experiência e o estado da arte, a tendência mundial vai no sentido das diferenciações dos cirurgiões em grupos de patologias.
Penso que é o caminho certo. Recuso-me a operar um doente que tenha uma patologia rara e que só me aparece duas a três vezes no ano, para operar.
Sempre considerei, na minha actividade clínica, que uma das minhas obrigações para com os doentes era orientá-los correctamente para os cirurgiões certos ou para os centros mais adequados para o tratamento.

LA – Por último, gostaríamos de lhe perguntar como encara a sua contratação como cirurgião do SAMS-Norte e o que pensa deste subsistema de saúde…
GF – A minha contratação como cirurgião do SAMS-Norte resultou, penso eu, do conhecimento que tinha da minha actividade clínica e do meu currículo, um colega, à altura adjunto da Direcção do SAMS, e, logicamente, da análise que esta Direcção fez do meu currículo. Estou no SAMS há dois anos.
O primeiro foi difícil para mim, na adaptação a algumas rotinas, procedimentos e atitudes já muito enraizadas. Não estou a dizer que estavam mal, mas de alguma maneira pareciam colidir com as minhas práticas e metodologias de trabalho, adquiridas ao longo dos anos que tenho de experiência como cirurgião e até de gestor na área da saúde.
De qualquer modo, já lá vão dois anos e confesso que neste último já me sinto muito melhor adaptado. Não desejaria, no entanto, proceder neste espaço a qualquer crítica ou análise profunda do subsistema SAMS.
Acho não ser o lugar apropriado. Mas já fiz as minhas análises e por isso deixo aqui algumas sugestões para os doentes do SAMS. A base de um sistema de saúde de qualidade e eficaz é a medicina geral e familiar de qualidade. O médico de clínica geral deve ser o pilar centralizador de toda a informação respeitante a um doente.
Os outros especialistas têm tendência a avaliar só aquela pequena parte da doença que lhe diz respeito, não vêem o doente como um todo, aspecto fundamental para a segurança e qualidade de tratamento dos doentes.
No que diz respeito à cirurgia geral e decorrente do que já disse atrás, seria interessante pensar-se na criação de uma equipa multidisciplinar.
Por último, dizer-vos que a base da qualidade do tratamento médico é a relação médico-doente, sustentada na conversa, na observação e na confiança mútua e não a utilização excessiva de meios complementares de diagnóstico, muitas vezes desnecessários, muitas vezes levando até a erros médicos e a complicações e uma fonte de desperdício dos poucos dinheiros das instituições responsáveis pelo tratamento de doentes.
A sua utilização criteriosa e adequada parece-me fundamental para uma boa prática médica.

 

     
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