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Não à indiferença e à apatia generalizadas

Recentemente, mais propriamente na Nortada do SBN de Agosto último, foi publicado um trabalho cedido pelo Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, cujo conteúdo é suficientemente importante e rico, para que nós, mesmo aqueles que já não estão filiados do seu trabalho, possamos ficar indiferentes e apáticos.

Em boa hora o SBN decidiu trazê-lo à estampa, pois ele revela-nos, de uma forma mais científica e esmiuçada, uma realidade sócio-laboral que, embora combatida e até negada por quem a constrói, parece perpetuar-se! E escrevo-o com a maior legitimidade deste mundo, que até permite apontar o dedo crítico às entidades patronais, tal como se fazia no tempo dos mesteirais da velha burguesia do Porto medieval, ou seja, acusar publicamente no pelourinho da cidade das profissões aqueles que exploravam os seus empregados e aprendizes!

Mas passados estes séculos todos, a sociedade regrediu em nome de uma pós-modernidade de uma modernidade que não será mais que inacabada! Hoje, é uma realidade social que dói. É uma realidade que desilude os bancários que não se acomodam e muito desilude os mais velhos que se envolveram em acções colectivas de classe em tempos de censura e depois já em tempos de liberdade, para construírem um mundo melhor, que desse maior dignidade ao seu trabalho e aos seus projectos de vida, sem precariedade e vulnerabilidades, assente em melhores condições de vida.

No fim de contas, é um retrato sócio-laboral que não estará dissociado do desinteresse e da apatia revelados pelos bancários que, apesar de a sua sindicalização se situar na casa dos 88% (só cerca de 12% rejeitam o sindicalismo), apenas 41,56% daqueles que estão no activo honraram os seus princípios de classe e de cidadania no último acto eleitoral das suas estruturas sindicais. E se os bancários reformados, com a sua apatia revelada no referido acto eleitoral, julgam intocáveis os seus modos de vida pelos quais tanto se empenharam e sacrificaram, não será de todo desperdício reflectir sobre as hipotéticas razões da sua tão reduzida participação (35,03%).

Ainda que pareça um despropósito, face ao espaço temporal, de facto não é! É que, se a problemática da representatividade dos trabalhadores é extremamente relevante para a legitimidade e o exercício do poder negocial perante as entidades patronais e a tutela, de forma alguma é menos importante a sua mobilização e a correspondente participação nas acções que forem desenvolvidas pelas suas estruturas de classe! Quanto à mobilização e meios utilizados, nenhum bancário pode ficar indiferente! Tenho a certeza de que a disponibilidade das estruturas sindicais foi total e os instrumentos de trabalho não foram escassos.

Logo, e face às contingências sócio-laborais concomitantes à crise instalada no sector (e recordemo-nos certamente do que se passou no BPN e outros), seria de esperar uma maior cidadania dos bancários, no activo e na reforma! Mas de facto não foi, e aproveito para lembrar que em todas as negociações o actual modelo de actualização das pensões de reforma é sempre posto em causa! E, no atinente a esta questão, só a firmeza dos três sindicatos verticais a tem tornado inatingível.

Por conseguinte, a apatia sindical e a ausência de cidadania não deixam de ser aproveitadas pela actual organização do capital, pela qual só os bancários poderão ser responsabilizados! Reflicta-se um pouco nas acções e suas consequências de outros sectores de actividade. E, por outro lado, convém não esquecer que o “mercado” sindical, agora na moda por questões meramente político-ideológicas, para além de ter sido promovido por alguns banqueiros (atente-se o que foi a promiscuidade burocrática na criação da Fundação Social do Quadro Bancário)1, se traduz também em perdas sucessivas para os trabalhadores!

Quer dizer, há que dividir para depois reinar, flexibilizando primeiro, fomentando a precariedade depois e instalando medos a seguir, a partir da pressão e coacção nela implícita sobre os funcionários. E é imperativo que se obstaculizem todas estas práticas com o agir, no mínimo, participando. É um desafio que se faz e um caminho que se desbrava, difícil, é certo, mas com saída! É uma realidade que não é mais que um somatório de desregulamentações que se tem vindo a consolidar na banca desde que se abraçou o modelo económico e de desenvolvimento que acaba de soçobrar às garras de um capitalismo sem alma e cujo hino se esconde por detrás de uma globalização que gere uma escala de valores a troco do “…mais vale um salário mínimo que o desemprego, [ou ainda] se fazem reivindicações amanhã fecha-se a fábrica”.

Promovem-se assim a precariedade, a incerteza e os medos aculturados pela via do tal modelo económico que faliu, o tal modelo recheado de paradoxos e contradições! O tal modelo que reivindica menos Estado e mais “mãozinha invisível” de mercado, para depois exigir ao Estado intervenção para acudir à sua falência e arcar com as sequelas sociais graves que daqui resultam! Pois é! Um modelo que morre às mãos dos seus próprios progenitores e que em nome de uma crise global, portanto com causas exógenas, escuda as suas próprias debilidades e tantas vezes incompetências, para depois se reoxigenar e retomar as mesmas práticas de exploração de trabalho barato ou não remunerado.

“Esmiuçando” assim algumas questões retiradas da análise dos balanços sociais da banca, temática aqui trazida para reflexão crítica, há que destacar essencialmente o tempo de trabalho, uma problemática antiga, recorrente e sempre actual. Pois é, “os bancários trabalham muito e faltam pouco”, e há banqueiros que “desabafam” publicamente que os bancários auferem salários muito elevados face ao que produzem! Só se forem algumas hierarquias que coagem os seus subordinados a prolongarem os seus horários de trabalho: observemos as tradicionais agências entre as 16h30 e 17h30, desde as mais rurais até às mais urbanas e ficamos a saber que neste espaço temporal ninguém abandona os seus postos de trabalho!

E depois destas observações feitas de uma forma aleatória (em locais e dias diferenciados), perguntámos, também a um bancário “indiferenciado” se o trabalho suplementar é remunerado. “ É possível”. Resposta mais amedrontada e enigmática não há; era uma jovem licenciada com contrato efectivo. Aliás, numa pequena amostra que construí, o grau académico a nível de licenciatura abrangerá, no momento, cerca de 73% dos trabalhadores bancários e 78% deles dizem, sem rodeios, que o trabalho suplementar pura e simplesmente não é pago, isto para além de trabalharem mais de sete horas diárias! Com efeito, aí temos o tal “truque de isenção” que é relevado, e muito bem, no artigo transcrito pelo SBN.

Um subterfúgio que é utilizado para cerca de 70% dos trabalhadores, sendo uma fatia de duas horas para 55% dos respondentes e a outra de uma hora para 45%! E ainda há quem permaneça no banco 50 horas semanais! É obra, uma média de 10 horas diárias, isto no pressuposto de que o fim-de-semana é consagrado ao descanso; curioso, precisamente uma questão dogmática da matriz cultural que os defensores (leia-se banqueiros) deste modelo neoliberal muito cultivam; é que convém ficar bem no retrato populista da não exploração da mão-de-obra, seja ela intelectual ou manufactureira!

Por outro lado, também não é menos verdade que há instituições de crédito a programarem algumas acções de formação para os fins-de-semana; está bem de ver que é para os bancários passarem a dedicar todo o seu tempo semanal exclusivamente à venda e aconselhamento de produtos e serviços. Quer dizer que lá vamos ter que fazer reemergir o desabafo dos “filhotes” (se é que alguma vez ele não mais se ouviu e apenas tem estado oculto por via do medo). “…precisa-se pai [e mãe] part-time, 2ª a 6ª. Quem tiver horas livres antes do jantar, gostar de jogar à bola, contar histórias, etc.”

Por conseguinte, os dados são elucidativos, não mentem e os banqueiros, ocultando, por um lado, este verdadeiro flagelo que condiciona e molda toda uma vida pessoal e familiar e inculcando o medo do desemprego por outro, acabam por alienar assim um património cultural de cidadania dos bancários; e guilhotinando a moralidade e a ética, “mandam às malvas” projectos de vida de toda uma geração, que deveriam assentar numa salutar relação entre empregador e empregado, (e não na velha (mas sempre nova, infelizmente) dicotomia de explorado e explorador, em que a família de amanhã fosse menos instável e precária, e para a qual os banqueiros, nas suas políticas de dação de crédito, não fizessem dos bancários reformados (já com reformas degradadas), uma parcela de sociedade ensanduichada que, por um lado, tem de cuidar dos seus progenitores com pensões depauperadas e carcomidas pelo tempo, e por outro, é coagida ao paradoxo de ter que ser avalista e fiadora da precariedade e do medo que eles próprios produzem.

E como não há sociedade alguma que construa o seu futuro sem que tenha em conta a sua história, temos que acreditar que a cidadania é um valor a recuperar, também em honra de alguns sobreviventes das décadas de 50 e 60 e daqueles que lhes sucederam e que são a grande maioria dos bancários agora reformados.


José Simões

1 Dos órgãos oficiais da Fundação Social do Quadro Bancário fazem parte administradores da banca e sindicalistas (Relatório e Contas 2004, p.24)

 

     
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