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A importância do diagnóstico precoce em saúde mental

O mal-estar psicológico que se arrasta ao longo do tempo e que é incapacitante para o normal desempenho social/familiar/profissional é muitas vezes menos valorizado que o mal-estar físico. Acresce a isto que também muitas vezes nos sentimos culpabilizados por andarmos tristes, desmotivados ou ansiosos. É-se mesmo levado a pensar que “com força de vontade dou a volta a isto”.

Naturalmente muitos destes sintomas podem fazer parte de um quadro reactivo normal a situações da nossa vida. Mas é infelizmente comum o aparecimento do pedido de ajuda quando as queixas já se arrastam há vários meses e por vezes anos. O diagnóstico precoce deve por isso ser fomentado e para tal cada um de nós deverá poder descortinar quando se trata de uma reacção psicológica que já não é normal, podendo por isso pedir a adequada ajuda médica, psiquiátrica ou psicológica.

De seguida passo a referir alguns quadros clínicos mais comuns e alguns sinais ou sintomas que devem ser considerados na proposta autoavaliação (patologias depressivas, patologias ansiosas e dependências de substâncias).

Patologias depressivas
A tristeza é muitas vezes a forma subjectiva de como é sentido o humor depressivo, um dos sintomas necessários para o diagnóstico deste tipo de patologias. O sentimento de vazio também é comum. Obviamente, deve salientar-se que também existe uma tristeza “normal”, inerente à condição humana, podendo mesmo dizer-se que algo vai mal quando esta não aparece nos momentos devidos. A perda generalizada do prazer e do interesse é outro dos sintomas frequentes.

Podem ainda surgir alterações do peso (aumento ou perda de pelo menos 5% do peso corporal num mês), alterações do ritmo de sono (insónia e hipersónia), agitação ou inibição psicomotoras, fadiga, perda de energia, sentimentos de desvalorização ou culpa, pensamentos recorrentes de morte (a taxa de suicídio nas depressões mais graves pode chegar aos 15%).

O diagnóstico médico ou psicológico implica a presença de um determinado número dos referidos sintomas, durante um dado período de tempo e é sempre acompanhado por uma incapacidade franca para o exercício das várias responsabilidades sociais, familiares, profissionais. De acrescentar ainda que é mais frequente a presença de dores e doenças físicas nas pessoas deprimidas. Um aspecto epidemiológico importante é que a incidência e a prevalência destas patologias são significativamente maiores no grupo etário entre os 25 e os 44 anos.

Patologias ansiosas
A classificação internacional das doenças reconhece vários tipos de distúrbios de ansiedade. Passo a referir-me a alguns dos mais comuns na prática clínica. No distúrbio de pânico estão presentes os chamados ataques de pânico. Num curto espaço de tempo instala-se um quadro clínico caracterizado, por exemplo, por palpitações, suores, parestesias (extremidades dos membros dormentes), dificuldades em respirar, náuseas, tonturas, medo de perder o controlo, medo de morrer. São ataques com um início abrupto, sem qualquer aviso e muito incapacitantes.

Com a evolução da doença instala-se, de forma insidiosa, um medo de que outros ataques aconteçam, o que conduz muitas vezes a sérias limitações do estilo de vida. Pode ainda surgir associada a agorafobia isto é, um grande medo, sentido como irracional e não controlável, relativamente a lugares ou situações em que a fuga é difícil ou a ajuda inexistente, caso surja um ataque de pânico (p. ex. estar numa multidão, a conduzir um automóvel, a viajar de comboio).

As fobias, outro dos distúrbios ansiosos a considerar, podem ser específicas, quando existe ansiedade à exposição de uma determinada situação levando a comportamentos de evitamento (p. ex. medo de animais, de sangue, de alturas). Existe ainda a denominada fobia social, aplicada aos casos em que surge associada à exposição a determinadas situações sociais e de desempenho, nas quais o sujeito está exposto a desconhecidos.

Nestas circunstâncias o paciente receia comportar-se de forma embaraçosa e humilhante, desenvolvendo grande ansiedade, mas simultaneamente reconhecendo que a sua reacção é excessiva e irracional. Como consequência desenvolvem- se também comportamentos de evitamento. O distúrbio obsessivo/compulsivo caracteriza-se, como o nome indica, pela presença simultânea de obsessões e de compulsões. As primeiras referem-se a pensamentos ou impulsos recorrentes e persistentes, sentidos como intrusivos e inapropriados (p. ex. associados a uma possível contaminação se apertar a mão a alguém, dúvidas repetidas, necessidade de executar tarefas numa ordem particular).

Estes pensamentos e impulsos são geradores de uma grande ansiedade, só debelável se o indivíduo agir de uma determinada forma. Surgem assim as compulsões que são comportamentos ou actos mentais repetitivos, cujo objectivo é evitar a ansiedade ou o mal-estar (p. ex. lavar repetidamente as mãos, ordenar objectos de determinada forma, rezar, repetir palavras mentalmente). Estas obsessões e compulsões provocam grande mal-estar, consomem muito tempo e interferem significativamente no normal funcionamento da pessoa.

O distúrbio de ansiedade generalizada é por sua vez caracterizado pela presença de ansiedade, fadiga fácil, dificuldade de concentração, esquecimentos (devidos à ansiedade), irritabilidade fácil, tensão muscular e problemas com o sono. Muitos pacientes também se queixam de sintomas somáticos (p. ex. mãos frias e húmidas, suores, náuseas, diarreia, dificuldades em engolir ou “nó na garganta”). São igualmente comuns sintomas depressivos. Nos estudos epidemiológicos aproximadamente dois terços dos pacientes são do sexo feminino.

Dependência de substâncias
Grupo de distúrbios com um “padrão desadaptativo da utilização de substâncias levando a deficite e sofrimento significativos” (p. ex. tabaco, álcool, drogas ilícitas). Existe tolerância (necessidade de cada vez maior quantidade de substância para se atingir o efeito desejado), abstinência (existe sofrimento físico e/ou psicológico se a substância não for consumida). Os esforços para diminuir ou abandonar o hábito são infrutíferos, o tempo gasto nos consumos é cada vez maior e há disrupção do quotidiano do sujeito.

A instalação de um quadro de dependência de substâncias está muitas vezes associado a patologias depressivas, ansiosas e outras alterações do estado mental. Epidemiologicamente, o alcoolismo, por exemplo, tem características particulares, pela elevada taxa de prevalência e de incidência, pelas implicações sociais, pelas patologias físicas associadas. Também aqui o diagnóstico e subsequente tratamento são frequentemente tardios, já numa altura em que se instalaram, como consequência dos consumos, graves problemas familiares e no emprego.

Assim, na presença de sintomas que possam indicar a presença de alguma das patologias referidas deverá consultar o seu médico assistente. A avaliação permitirá a escolha do tratamento adequado, que poderá incluir o uso de fármacos específicos, o acompanhamento psicoterapêutico e o seguimento regular e contínuo em consulta. O tratamento médico-psiquiátrico (com o uso de fármacos) e o tratamento psicológico não se excluem, sendo, antes pelo contrário, complementares. A sua utilização simultânea, quando indicada, optimiza os resultados terapêuticos e diminui a morbilidade.

Um aspecto importante é o da correcta adesão aos tratamentos, que a maior parte das vezes são longos, não devendo ser interrompidos quando os sintomas são controlados ou debelados. Uma fraca adesão ao tratamento está associada a um maior risco de recaída e de cronificação da patologia. Naturalmente, outros distúrbios psiquiátricos, menos comuns mas muitas vezes graves e com evolução crónica ficaram por referir. São exemplos as perturbações psicóticas (p. ex. a esquizofrenia e a paranóia), os distúrbios de personalidade, as perturbações sexuais e de identidade de género e as perturbações do comportamento alimentar (p. ex. a anorexia nervosa e a bulimia).


António Correia
Médico

 

     
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