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Uma economia eco-eficiente. Uma nova era na energia.

As expectativas criadas para a Conferência de Copenhaga redundaram num autêntico fracasso. A ilusão de que seria possível criar um rumo na direcção da protecção do planeta e cimentar a construção de um ambiente menos degradado, mais saudável para as gerações vindouras, deu lugar ao pesadelo, à descrença e ao pessimismo. Mas enquanto acreditarmos ser possível, tudo deveremos fazer e, é nesse sentido, que a sociedade civil europeia, representada no CESE – Comité Económico e Social Europeu – elaborou um Parecer de Iniciativa, que quero apresentar aos leitores.

As razões para, rapidamente, se promover a transição para uma economia eco-eficiente são bem conhecidas. As alterações climáticas provocadas pelas emissões de gases com efeito de estufa estão a causar sérios problemas em muitas partes do mundo, que se tornarão ainda mais graves no futuro. Ao mesmo tempo e à medida que as alterações climáticas se vão intensificando, a probabilidade de as reservas mundiais de petróleo e gás natural se esgotarem torna-se cada vez mais iminente, com o risco de preços cada vez mais instáveis para estes bens.

As regiões que, como a Europa, dependam de importações, terão que aumentar a segurança do seu aprovisionamento energético através da diminuição do consumo total de energia e do recurso a fontes de energia alternativas, disponíveis no interior das suas fronteiras. No seu conjunto, estes dois desafios estratégicos de longo prazo, implicam que o mundo tem de empenhar- se numa transição maciça para a eco-eficiência.

Os líderes do G8 aceitaram o princípio, sublinho “aceitaram o princípio”, de que as economias mais desenvolvidas teriam que reduzir em 80% as emissões de gases com efeito de estufa até 2050. As Perspectivas Energéticas Mundiais para 2008 da Agência Internacional da Energia (AIE) estimavam que mais de 50% dos objectivos de redução da concentração de CO2 para 450 partes por milhão (ppm) até 2030 poderiam ser alcançados pela introdução de tecnologias de eco-eficiência já disponíveis.

Há soluções eco-eficientes já prontas para serem postas em prática, quer ao nível da procura (edifícios, indústria, transportes) quer ao nível da oferta (por exemplo a cogeração de electricidade e de calor). Importa envidar mais esforços para estimular os intervenientes no mercado e adaptá-las mais rapidamente. Para além das já existentes, novas tecnologias eco-eficientes e hipercarbónicas, devem estar prontas para uma implantação no mercado global já nas próximas décadas, permitindo as reduções suplementares necessárias.

As análises efectuadas pela AIE estimulam a necessidade de agir cedo para promover I&D (Investigação e Desenvolvimento) privado e fomentar a aprendizagem em toda a cadeia, desde o fornecedor até ao operador e ao consumidor, de modo a aperfeiçoar as tecnologias e convertê-las, transformando os projectos em produtos correntes, fiáveis e eco-eficientes.

São precisas novas tecnologias tanto para continuar a melhorar a eficiência energética (por exemplo edifícios sem emissões, iluminação, processos industriais) como para reduzir as emissões de CO2 do aprovisionamento (por exemplo energia solar, captura e armazenamento de carbono, combustíveis não fosseis para os transportes). Todas estas transformações são possíveis actualmente, importa é acelerar o ritmo da mudança. Na Europa há já vários exemplos de êxito na melhoria da eficiência e na introdução das tecnologias hipocarbónicas nos mercados.

O regime comunitário de rotulagem energética levou a que o mercado dos sistemas de refrigeração alcançasse uma eficácia energética muito mais elevada. Programas nacionais de adaptação de edifícios já existentes melhoraram a eficiência térmica. Programas nacionais de implantação da energia eólica e da energia solar aumentaram consideravelmente o recurso a esta tecnologia e reduziram os custos, criando indústrias de muitos milhares de milhões de euros nos países em que foram adoptados.

Contudo é indispensável congregar e divulgar as experiências obtidas com esses programas e aproveitá-las num novo esforço comum e concertado de disseminação e implantação das novas tecnologias hipocarbónicas em toda a Europa. Há três inovações que parecem particularmente promissoras e susceptíveis de serem bem acolhidas pelo público, ajudando a melhorar gradualmente a eco-eficiência: . No domínio da geração de electricidade continua a ser necessário acelerar a transição para fontes de energia renováveis.

A energia solar continua a ser dispendiosa e marginal, embora os custos estejam a baixar constantemente. Importa agora incentivar a produção quer em aplicações locais de pequena escala, quer em centrais de grandes dimensões. A energia eólica está finalmente a ser empregue em grande escala, mas é ainda necessário reduzir os custos. As bombas de energia geotérmica têm mostrado bons resultados e deverão ser rapidamente desenvolvidas a fim de se tornarem num elemento obrigatório em todas as novas habitações e outros edifícios.

As redes de distribuição, as infra-estruturas de apoio e os sistemas de armazenamento terão que ser revistos e modificados a fim de permitirem uma maior proporção de energias renováveis através de princípios inovadores de concepção e de gestão; . O automóvel eléctrico. Há limitações físicas de base à redução das emissões dos motores de combustão interna. A certa altura haverá uma transição para veículos exclusivamente eléctricos ou com células de combustível recarregadas ou reabastecidas por fontes de energia com poucas emissões de gases com efeito de estufa.

O Comité (CESE) considera este o momento de começar a definir objectivos e prazos específicos para planificar a transição e criar infra-estruturas e outros equipamentos necessários; . No sector da construção civil. Os edifícios sem emissões de carbono começam a tornar-se uma realidade. São necessários esforços significativos para converter o que ainda não passa de uma série de protótipos interessantes num produto acessível em grande escala. Para isso haverá que desenvolver casas-modelo, cuja concepção tenha em conta os condicionalismos climáticos e geográficos de cada região europeia.

A actual crise económica constitui tanto um risco como uma oportunidade. O risco é que a resposta aos problemas económicos que persistem venha a absorver toda a atenção política e todos os recursos disponíveis e que as medidas se concentrem no restabelecimento do status quo e a mesma tendência para o aumento das emissões. A oportunidade é que há uma margem considerável para quebrar este modelo e adoptar uma estratégia eco-eficiente que contribua para a retoma económica, para o reforço da competitividade e para a criação de emprego e facilitar a transformação da base energética e a redução drástica das emissões.

O CESE está convicto de que haverá vantagens competitivas substanciais para as economias que conseguirem adaptar-se mais rapidamente à eco-eficiência e desvantagens não menos consideráveis para as economias que se atrasarem neste processo.


Alfredo Correia

 

     
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