Os “970 alertas de branqueamento de capitais de 2009” e os “Bancos lucraram quatro milhões de euros por dia” (in Nortada de Março, 2010), são assuntos que, e dado o momento particular de crise que vivemos, acabaram por me atrair para uma reflexão que gostaria de partilhar com os colegas! Sobre a primeira questão, infelizmente continuamos a não ter uma referência de boa justiça que nos alente e que seja um tónico para os recorrentes índices de desconfiança nas nossas instituições que tratam destas coisas da justiça! Uma desconfiança, ou melhor dizendo, a descrença que é transversal à população, e que com mais ou menos recursos escolares, não pára de crescer! E a ela não deixarão de estar imbricados, por certo, a economia subterrânea, as fugas ao fisco e às obrigações sociais, as imorais e chorudas remunerações de administradores, a insolubilidade de empresas arrastada nos tribunais, os litígios laborais, empresariais e do foro civil que apanham bolor nas prateleiras ou gavetas!
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Já na primeira República se escrevia que Portugal vivia uma permanente crise económica, pois tal como hoje, o país consumia mais do que aquilo que produzia; dizia-se ser “ … um facto secular [o] encerramento e liquidação das empresas mais fracas (…) da pequena indústria”. Também já na altura, o capitalismo decidia zarpar com os seus capitais, no fundo, o “seu ouro escorregava” para o estrangeiro. Nasce daqui uma coincidência curiosa! Não foi há dias engendrada uma medida política para promover, pela via de (algum…) perdão fiscal, o retorno de capitais “exportados”? Mas será coincidência? Como rotular estes comportamentos, que exigem aos poderes políticos “estruturas do lucro”, para depois, num país pobre que de facto o é, se revelar um capitalismo aético, assolidário e amoral? Advoga ainda para si, e cada vez mais, a máxima flexibilidade laboral, cujas sequelas já todos nós conhecemos com especial enfoque na exploração dos seus trabalhadores (agora colaboradores para ser mais politicamente correcto e modernaço), esperando sempre que estes ofereçam a outra face, que esqueçam a família e as suas sociabilidades, valores estes que são os pilares de uma sociedade solidária e harmoniosa. Tudo isto se vive nos “nossos” bancos, infelizmente! Mas quem é o bancário, esteja no activo ou na situação de reformado, a não desejar que o seu banco ganhe dinheiro? Obviamente que todos o desejam! E por maioria de razões, estão os reformados na linha da frente. Mas assim, com a destruição do que foi mais nobre e caro à geração que lutou pela sua dignidade e um contrato colectivo de trabalho, que ainda hoje serve de referência…, ISSO NÃO! A “Febase faz um derradeiro esforço para manter a paz social”, é a mensagem que a sua revista número um nos deixa, não descartando de todo a hipótese de se “enveredar por acções de luta”, acrescenta! E a “negociação colectiva: 2009, ano difícil e irregular”, escreve-se na nossa Nortada! No entanto, e no atinente à solidez financeira do sistema financeiro, reflictamos nisto: “Os bancos lucraram quatro milhões de euros por dia (…), representando um aumento de mais de 14% que em 2008 (…) o sector bancário continua a atingir lucros acima das estimativas do mercado”(in Nortada de Março)! Estamos assim perante um indisfarçável paradoxo que a apatia social, por um lado, e a apatia dos bancários por outro, acabam por legitimar! Os bancos agravam os custos da bancarização dos cidadãos com aumentos na casa dos vinte por cento em alguns serviços que prestam (desde a manutenção de contas ao fornecimento de cheques, por exemplo)! Em seguida, escudandose na crise, afrontam as organizações sindicais com propostas imorais e sem ética alguma, como temos vindo a observar! A emergência de uma vincada pulverização sindical no sector não veio beneficiar ou credibilizar o sindicalismo, e muito menos beneficiar os bancários em particular. E disto não tenho dúvidas de que deste processo de pulverização sindical, (novos sindicatos de empresa e outros de criação mais recente), resultou podermos observar a perpetuação de velhos comportamentos, como de uma verdadeira reprodução negocial enquistada de clivagens classistas e ideológicas, ainda não superadas, se tratasse, infelizmente! Mas sobre este problemática, quiçá o verdadeiro paradigma dos obstáculos criados aos bancários e das novas estratégias dos banqueiros, gostaria de um dia destes trazê-la à colação, se a tanto me for permitido! Julgo não dever ficar sem resposta crítica, a posição assumida pelo presidente do SNQTB, recentemente publicada em livro (Sindicato – Empresa, uma nova via para o sindicalismo, 2009, Deplano Network, SA). Diz ele “ (…) não querer converter ninguém [mas] que o sindicalismo está fora de moda…”. Ficarão então para uma próxima oportunidade as considerações que a dita obra nos sugere.
José Simões, Sócio 10791, Sociólogo