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O que devo saber sobre a catarata e a cirurgia da catarata


... da Saúde:
...Estado de completo bem-estar físico, moral e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade
(O.M.S.)
Luis Aguiar
Diretor clínico do SAMS


Mais uma vez o Serviço de Oftalmologia do SAMS, através de dois dos seus elementos Luís Torrão e Ângela Carneiro colabora com a Nortada oferecendo-nos dois artigos de grande importância e de excelente qualidade, versando patologias oculares com taxas de incidência muito apreciáveis, especialmente em indivíduos acima dos 50 anos.
Esperando que a leitura seja agradável e que, sobretudo, deles possam tirar informação proveitosa para a vossa saúde, quero terminar agradecendo aos dois médicos a excelência dos artigos.



O que devo saber sobre e a cirurgia da catarata

Luís Torrão, oftalmologista

A visão é um dos mais importantes sentidos de que dispomos para interagirmos com o mundo à nossa volta. Para seu bom desempenho é indispensável que os olhos funcionem perfeitamente.

O olho humano é semelhante a uma máquina fotográfica. No segmento anterior, internamente, existe uma lente, o cristalino, com capacidade de focagem, e na parte posterior, uma película nervosa sensível, a retina, que funciona na captação de imagens, tal qual uma película fotográfica. A retina transmite ao cérebro a imagem que, através do cristalino, é focada pelo olho. Para uma visão adequada é preciso que o cristalino seja transparente, para que os raios de luz possam entrar e serem captados pela retina. A catarata é o cristalino opacificado, que impede total ou parcialmente os raios de luz de chegarem à retina, prejudicando a visão.


O que é a catarata?
O envelhecimento natural das células do cristalino é a causa mais comum da catarata, embora existam outras origens: hereditariedade, traumatismo, doenças sistémicas, congénitas, medicamentos e infeções oculares. Não há nenhum método capaz de evitar ou prevenir a catarata.

O único tratamento eficaz conhecido até hoje é a intervenção cirúrgica. O aparecimento não pressupõe a necessidade imediata de cirurgia. Algumas cataratas são lentas e outras progridem com maior rapidez. A catarata não é, como alguns pensam, uma membrana que cresce sobre a córnea e que é retirada através de uma raspagem; a isso dá-se o nome de pterígio. A baixa da visão provocada pela catarata só poderá ser recuperada pela remoção do cristalino opacificado e a introdução de um cristalino artificial (lente intraocular).


Causas e tipos de catarata
A catarata pode ser resultante de problemas genéticos, metabólicos, nutricionais e agressões ambientais, como a exposição excessiva à luz solar. Pode ser secundária a outras doenças oculares e sistémicas. Porém, o fator de risco mais importante é a idade. Existem vários tipos de catarata. A catarata senil é o tipo de catarata mais comum, estando o aparecimento relacionado ao avanço da idade. Aproximadamente aos 60 anos, a probabilidade de desenvolver a doença aumenta signicondificativamente.

A catarata congénita manifesta-se na infância e pode ser um importante fator limitante do normal desenvolvimento do potencial visual. A catarata traumática relaciona-se com lesões oculares (sejam elas perfurantes ou não).
Todas estas até agora mencionadas são cataratas primárias. Para além destas, existem as formas secundárias, que aparecem relacionadas com outras doenças, que podem ser sistémicas (por exemplo, a diabetes) ou oculares (por exemplo, o glaucoma). Também a utilização de alguns medicamentos, sejam eles usados em forma de colírios ou via oral, podem estar relacionados com o aparecimento de cataratas. Destacam-se aqui os corticoides, que podem induzir o aparecimento de catarata e também aumentar a pressão intraocular.


Formas de prevenção
Até hoje não se conhecem quaisquer medidas eficazes para prevenir o aparecimento de catarata. Alguns hábitos de vida, como o tabagismo e a ingestão de bebidas alcoólicas em excesso, podem estar relacionados com uma maior incidência da catarata. Certos tipos de medicamentos e colírios também podem induzir o aparecimento da doença.


Manifestações mais frequentes
No estádio inicial, a catarata pode causar uma perda discreta da qualidade visual, alterando a visão das cores, que se apresentam mais desbotadas.

Outro sintoma comum é a diminuição da acuidade visual noturna, às vezes com certo ofuscamento na presença de focos intensos de luz, como faróis de automóveis.

À medida que a catarata avança, a visão vai ficando progressivamente mais turva, prejudicando as atividades mais comuns, tais como a leitura, passear ou ver televisão.
Nos casos extremos, a queixa óbvia é a perda da visão útil. Não são raros os casos de pacientes mais idosos que sofrem quedas e fraturas sérias devido à visão prejudicada pela catarata.

Quais as formas de tratamento de catarata?
A única forma de tratar a catarata é a sua exérese cirúrgica e a colocação de uma lente no local do cristalino com a potência adequada. As formas de tratamento recorrendo a medicamentos, administrados por via oral ou local sob a forma de colírio não provaram qualquer eficácia.


Quando operar?
A decisão sobre quando operar deve ser tomada em conjunto pelo médico e o paciente. No passado, havia a necessidade de esperar a catarata ?amadurecer? para indicar a cirurgia, em função da técnica que era utilizada.
Hoje, com as novas técnicas cirúrgicas, quando a pessoa começa a não fazer o que gosta e muda a maneira de viver em função das limitações impostas pela catarata, está na hora de se submeter ao procedimento cirúrgico. A idade avançada ou as condições físicas precárias não constituem obstáculo à cirurgia de catarata, até porque a reabilitação da visão proporciona melhoria física e atitude mental mais positiva.

Caso a visão do paciente ainda esteja relativamente preservada, sem prejuízo para suas atividades habituais, não há problema em se adiar um pouco a intervenção. Nesta situação é importante o acompanhamento periódico pelo oftalmologista para observar o momento certo
da cirurgia, evitando assim complicações. Caso a catarata provoque algum prejuízo à visão do paciente, deve-se tratá-la oportunamente, garantindo assim uma adequada recuperação visual. O estado de saúde geral do paciente também deve ser levado em conta ao se programar a cirurgia. Estados de saúde muito frágeis ou debilitados podem comprometer o resultado.


Pré-operatório
O exame oftalmológico completo é o pré-requisito básico para se diagnosticar a catarata e antever os possíveis problemas. Em seguida, avaliando-se individualmente cada paciente, podem ser necessários alguns exames complementares que ajudariam a reduzir os riscos durante a intervenção cirúrgica. O paciente, principalmente aquele com idade mais avançada, deve efetuar análises gerais e eletrocardiograma, para diminuir o risco pré-operatório.

Em situações especiais, pode ser necessária uma avaliação complementar por um médico cardiologista, endocrinologista, um neurologista, ou outros especialistas.

No pré-operatório, os pacientes devem manter os medicamentos de uso contínuo, sempre comunicando o facto ao oftalmologista e ao anestesista. Alguns colírios podem ser utilizados antes da cirurgia e é importante seguir corretamente a prescrição pós-operatória indicada pelo cirurgião. Com relação à alimentação, aconselha-se jejum de alimentos sólidos por pelo menos quatro horas antes da cirurgia, mas esta conduta pode variar caso a caso.


A intervenção cirúrgica
O implante intraocular na cirurgia de catarata foi o maior avanço da oftalmologia nos últimos 20 anos. As novas técnicas cirúrgicas permitem colocar essa cirurgia como uma das de maior eficiência na medicina atual, com mais de 90% de sucesso funcional. A cirurgia é realizada em centro cirúrgico sob sedação com anestesia local com assistência do anestesista. O tempo de duração é em média de 15 a 20 minutos e o paciente permanece na clínica em torno de 3 a 4 horas.

O atual tratamento da catarata é eminentemente cirúrgico. Não existem quaisquer colírios, óculos e medicamentos cientificamente comprovados que curem ou previnam o aparecimento.

A técnica cirúrgica mais usada atualmente é a facoemulsificação, na qual se obtêm resultados melhores e mais rápidos. Esta técnica utiliza um aparelho sofisticado chamado facoemulsificador. Faz parte dele um tipo de ?caneta? que emite ondas ultrassónicas, que são capazes de triturar o cristalino com catarata. Depois de triturado, os fragmentos assim formados são aspirados através da pequena abertura pela qual a extremidade da ?caneta? foi introduzida dentro do olho. A catarata é removida e em seu lugar é implantada uma lente artificial, chamada lente intraocular, que substituirá o cristalino, permitindo a adequada focagem das imagens captadas pelo olho.

Esta cirurgia é habitualmente rápida e indolor, com pequenas incisões que dispensam os ?pontos? ou suturas. A anestesia utilizada pode ser uma infiltração local ou até mesmo gotas de colírio anestésico.

Na grande maioria dos casos, a recuperação da visão ocorre logo nas primeiras 24 horas e o resultado é facilmente percebido.

Outra técnica cirúrgica menos usada atualmente é a técnica extracapsular. Nela, o cristalino com catarata é retirado por inteiro do olho, sem que o mesmo seja previamente fragmentado. Assim sendo, a incisão é maior, tornando necessário a utilização de ?pontos? ou suturas.

Também aqui é implantada a lente intraocular. Porém, a recuperação visual é mais lenta e a reação inflamatória induzida pela cirurgia é mais intensa. Pacientes muito ansiosos e tensos podem necessitar de leve sedação, o que facilita o procedimento. Alguma restrição alimentar é adequada antes da cirurgia.

Habitualmente, é sugerido um jejum de alimentos sólidos por um período de pelo menos quatro horas, variando de acordo com cada situação.

Todos os medicamentos tomados pelo paciente devem ser informados previamente à equipa cirúrgica. Alguns médicos sugerem a suspensão da utilização de anticoagulantes, tais como a Aspirina®, AAS® e Cartia® até 10 dias antes da cirurgia, mas esta conduta não é do consenso geral. Pacientes portadores de diabetes devem ter monitorização dos níveis glicémicos (glicose), pois estes interferem significativamente no metabolismo, podendo prejudicar a cicatrização.

Outros casos especiais devem ser considerados, analisando-se cada situação detalhadamente com o auxílio do médico especialista em questão. Um exemplo é a catarata infantil ou congénita, em que a preparação, a anestesia e a cirurgia em si, bem como o implante ounão da lente intraocular serão abordados de acordo com a idade, acuidade visual, tipo de catarata, presença de outra alteração concomitante e estado geral da criança portadora da catarata.
Alguns cirurgiões praticam a cirurgia bilateral simultânea, ou seja, operam ambos os olhos sucessivamente, no mesmo ato cirúrgico. A reação de um olho após a cirurgia serve de padrão de comparação.

Assim, é prudente aguardar pelo menos 24 horas para se operar o outro olho. Esse intervalo pode ser maior de acordo com cada situação.


A lente intraocular
São implantadas com o objetivo de substituir o cristalino humano que estava opaco em decorrência da catarata e que foi cirurgicamente retirado. Desde a sua invenção há mais de 54 anos, as lentes intraoculares beneficiaram de grandes inovações, podendo hoje, em casos selecionados, dispensar a utilização constante de óculos após a cirurgia. As primeiras lentes intraoculares foram muito combatidas pela classe médica da época e hoje constituem talvez o maior avanço à disposição do oftalmologista cirurgião.

Existem atualmente lentes compostas de materiais flexíveis e dobráveis, dobráveis, que permitem a colocação através de incisões inferiores a 3 milímetros de largura. Tais materiais aumentaram também a biocompatibilidade, ou seja, têm baixo potencial de provocar reações inflamatórias. Essa boa biocompatibilidade também é responsável pela diminuição de possíveis complicações pós-operatórias, como a catarata secundária e o deslocamento da lente.

As lentes atuais permitem a correção de outros problemas oculares além da catarata, como a miopia, a hipermetropia, o astigmatismo e, mais recentemente, a presbiopia ou ?vista cansada?. Evidentemente
não se pode generalizar; cada situação cirúrgica deve ser analisada em particular, sendo então indicada a melhor lente para cada caso.

O restabelecimento pleno da visão só será possível com a implantação da lente. Porém, existem casos em que, durante a cirurgia, é inviável o implante primário. Devido à ausência de suporte adequado, o cirurgião faz opção por não implantar a lente num primeiro momento, reservando este procedimento para uma outra intervenção. Esta rara situação pode decorrer de vários fatores, que devem ser bem estudados pelo profissional responsável.

O médico oftalmologista é quem deverá indicar o tipo e modelo de lente intraocular mais adequado para cada situação, levando em conta os aspetos de cada paciente. Sempre que possível, é indicado a utilização de uma lente dobrável ou flexível, pois certamente a incisão cirúrgica será menor e a recuperação e cicatrização mais rápidas.

Procure discutir com o seu oftalmologista sobre o seu caso e analise as opções disponíveis.


Pós-operatório
No período que se segue à cirurgia, alguns cuidados devem ser tomados pelo paciente operado, a fim de garantir uma recuperação adequada. Não coçar o olho operado, protegendo-o sempre que necessário, evitar o contacto direto com água e minimizar a exposição a ambientes poluídos, poeiras e vapores. É necessário reduzir temporariamente a atividade física e a execução de tarefas domésticas.
Deve-se ainda ter cuidado com o caminhar, estando atento para pisos irregulares, tapetes e quaisquer outros obstáculos. Seguindo estas observações, assegura-se uma recuperação adequada da cirurgia.
Nas cirurgias sem complicações, o paciente já nota melhoria da acuidade visual logo após a cirurgia. Isto também vai depender do tipo de anestesia empregado, tipo de lente implantado e do bom funcionamento das outras estruturas oculares, como a retina e nervo ótico.
Se a anestesia foi local, com uma aplicação na região periocular, o
paciente frequentemente vai manter um penso fechado ou protetor sobre o olho nas primeiras doze horas de pós-operatório. Se a anestesia utilizada foi tópica, ou seja, apenas com gotas de colírio
anestésico, a reabilitação da visão é muito mais rápida.


Acompanhamento
A catarata secundária após cirurgia é a opacificação da cápsula posterior do cristalino que, durante a cirurgia da catarata, foi preservada com o intuito de apoiar e suportar a lente intraocular implantada.
Esta fina membrana é transparente. Porém, com o passar do tempo, pode tornar-se opaca e causar baixa da visão. As lentes intraoculares mais modernas reduzem a incidência desta complicação.

A catarata secundária, também chamada de opacificação da cápsula posterior, deve ser tratada através da aplicação de um tipo de laser denominado de YAG laser. Este laser consegue produzir uma abertura
na cápsula que está opaca, promovendo a recuperação da visão.

A cirurgia de catarata é uma cirurgia segura, eficaz e que permite restabelecer a qualidade de vida. Após a cirurgia e mesmo sem qualquer intercorrência associada, é recomendada uma consulta anual.

     
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