Pesquisa

ok
Home»Nortada»Nortada Detalhe
 
Como vai funcionar o “Impulso Jovem”

(Texto retirado do Expresso de 15/6/2012)

"O conjunto de medidas aprovado no programa Impulso Jovem será concretizado com um recurso a um fundo superior a 344 milhões de euros e cobrirá um universo de noventa mil jovens, dando prioridade às designadas regiões de convergência (Norte, Centro e Alentejo).
A ação merece o aplauso dos especialistas, mas não na totalidade.

É que, embora tenha como meta resolver o drama nacional do desemprego jovem, deixa de fora uma outra preocupante fasquia de desempregados – os profissionais acima dos 40 anos.

A Europa há muito deu o alerta para a urgência de travar a escalada do desemprego entre os jovens, que, a nível global, já atinge quase 75 milhões de profissionais entre os 15 e os 24 anos. Em Portugal os números são igualmente alarmantes. Os últimos dados do Eurostat apontam para uma taxa de 36,6% de desemprego jovem no país.

Na maioria são jovens qualificados, a quem o mercado laboral e as empresas nacionais não conseguem assegurar um emprego. Instado pela Comissão Europeia a adotar medidas urgentes para travar este flagelo nacional, o Governo português aprovou e apresentou o programa Impulso Jovem. Prevê-se que as medidas contempladas neste plano favoreçam cerca de noventa mil jovens, mas que deixem ainda de fora os cerca de 439 mil desempregados acima dos 35 anos que, à luz dos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), estavam sem trabalho no primeiro trimestre deste ano.

Segundo o INE, em março de 2012 Portugal tinha 191,8 mil desempregados entre os 35 e os 44 anos de idade, número que se tornava ainda mais preocupante na faixa etária que abarca os desempregados com 45 anos ou mais, em que 247,4 mil profissionais estavam já sem emprego. Se, por um lado, a iniciativa Impulso Jovem é bemvinda no atual cenário económico, há quem já chame a atenção para esta importante franja da população que fica de fora e para a qual, até pelo fator idade, se torna difícil desbravar o caminho das novas oportunidades laborais.

Um dos primeiros a refletir sobre a ausência de incentivos à contratação destes profissionais, no atual plano, foi Francisco Madelino. O ex-presidente do Instituto do Emprego e Formação Profissional veio a público referir que a discriminação positiva dos jovens, exageradamente, no contexto de não criação de emprego, nada fará senão alterar a composição do emprego, colocando jovens em substituição de ativos adultos que estão desempregados. Aquele especialista acrescentava ainda que "o programa não é geral, para todos os públicos desempregados e com enormes problemas, nem para todas as regiões" e que "discrimina exageradamente os jovens face a outros setores da sociedade".

Não abarca todos, mas agrada à generalidade.
Nem os sindicatos, nem os patrões, nem a generalidade dos portugueses estão descontentes com o programa de combate ao desemprego jovem agora aprovado. Mas levantam-se dúvidas quanto ao real impacto no desemprego e na capacidade de contratação das empresas. Para os profissionais acima dos 40 anos, mais do que as dúvidas, eleva-se uma certa angústia por se sentirem esquecidos entre os portugueses mais jovens.

É o caso de Teresa Pereira. Aos 44 anos, a ex-delegada de informação médica está desempregada há dois anos e não consegue colocação, mesmo fora da área. Conhece de cor o argumento de "procuramos alguém mais novo e sem tantas qualificações" e confessa até já ter omitido experiência e formações no currículo para conseguir uma vaga no mercado de trabalho. "Esperava que os apoios chegassem também para pessoas como eu, que tenho experiência profissional acumulada, qualificação numa área muito específica, que seria um valor acrescentado numa empresa", explica, adiantando que as "as empresas não querem pessoas com experiência porque acham que temos objetivos salariais altos.

Querem jovens, a baixo custo e com apoios estatais".

Por nos parecer de interesse geral, e se debruça sobre uma medida geradora de discriminação social, (regresso à diferenciação ente o ensino técnico e o ensino liceal do antes do 25 de abril) tomamos a liberdade de transcrever o texto anexo, da autoria de André Macedo.

"O erro Crato"
por André Macedo

O ministro da Educação quer desenvolver o ensino vocacional.
Muito bem. Como seria bom que os estudantes pudessem escolher formações técnicas capazes de lhes transmitir (também) um saber profissional. Como seria excelente que estes cursos respondessem (também) às necessidades do mercado de trabalho.

Como seria bom que não se desperdiçasse recursos atirando para cursos superiores pessoas que não os querem fazer.

Já se pensou no tempo que poderíamos poupar? Na inteligência, energia e talento que um plano assim libertaria? Aposto que seríamos um país mais feliz e competitivo.


Mas se é assim tão evidente, porque nunca se deu este passo como deve ser? Porque será que a concretização se revela tão difícil? Porque será que as famílias e os alunos evitam esta escolha?

A resposta está no projeto macabro de Nuno Crato. De acordo com o ministro, quem irá para estes cursos? Ora bem, além dos voluntários – coitadinho, tem 14 anos, mas não dá para mais... –, os que chumbarem duas vezes no ensino secundário também têm o destino traçado. É um castigo: és uma besta, vais já para jardineiro; sim, terás mais uma oportunidade para voltar ao ensino regular, mas para já ficas-te por aqui. Depois, se passares os exames do 9.º ou 12.º anos, logo veremos.

Não há dúvida: se a via profissional é apresentada como uma punição, é lógico que poucos – entre os bons e talentosos – quererão juntar-se a este gueto onde a qualidade será ridiculamente baixa. É lógico que só as famílias mais pobres ou desinformadas aceitarão este afunilamento precoce, cruel e estúpido das perspetivas. Os outros nem por um segundo pensarão em seguir este caminho (a segunda divisão!) que o próprio Governo se encarrega à partida de desvalorizar. O que isto revela de Nuno Crato é apenas um terrível cheiro a naftalina.

Na Alemanha, pátria do ensino vocacional, ninguém é chutado da "escola regular". Não se fecham portas. Não se elevam barreiras aos 14 anos em lado nenhum do mundo civilizado.

Avaliam-se competências, oferecem-se alternativas. Não se apressam escolhas à reguada. A ligação às empresas é uma das maneiras de fazer isto com algum êxito: são as associações de empresários que, na Alemanha, ajustam a oferta de cursos profissionais às necessidades do mercado. Não há rigidez, há flexibilidade e oportunidade - a oportunidade de, na idade adequada, estagiar numa empresa. É por isso que 570 mil alunos alemães se inscreveram nestes cursos em 2011, contra os 520 mil que preferiram a universidade. Não foi porque lhes enfiaram orelhas de burro na adolescência.

Nuno Crato vive preocupado em exibir autoridade. Quer chumbar, punir, travar. Vê a escola como um centro de exclusão, não como espaço de desenvolvimento de competências sociais, culturais e técnicas - com regras, competição e exigência.

Não tem um plano educativo desempoeirado: sofre de reumatismo ideológico. Engaveta os alunos. Encolhe o País.
Reduz a riqueza. É matemático."

     
   Imprimir        Voltar        Topo
Copyright © 2007 SBN