E as crianças, também, Senhor? Ou será tudo ensandecido?
Portugal despertou nos últimos tempos para duas realidades para as quais não está preparado, ainda, para as resolver. A primeira foi a desertificação do interior do País, dada a fuga para o litoral dos seus habitantes. Mas o que se poderia esperar, quando as indústrias abandonam o interior, recebendo incentivos para se deslocalizarem para o litoral, quando se deixa de investir em redes viárias e ferroviárias, encerrando mesmo muitas delas, portajando outras, quando se encerram hospitais, maternidades, escolas, jardins-de-infância, repartições de finanças, tribunais, agências bancárias e outros serviços fundamentais para quem vive nestes locais? Como se pode pedir às pessoas para viverem no interior se o Estado lhes retira da sua proximidade serviços necessários e fundamentais para o seu dia-a-dia? Como se pode, suprema maldade, obrigar crianças com 6, 7 e 8 anos a deslocarem-se, algumas de madrugada, chegando a casa ao final do dia, no inverno, já noite cerrada, largas dezenas de quilómetros, em nome de uma redução de custos, quando se continuam a esbanjar milhões de euros em obras de duvidosa utilização e interesse, e sempre realizadas na área litoral do País e com grande concentração na da capital? Nunca será desta forma que as pessoas serão atraídas para o interior em detrimento do litoral. Quando se fala na reindustrialização de Portugal tem de se pensar e criar condições para que se desenvolva no interior de Portugal, fixando as pessoas nessas áreas. A outra realidade que nos últimos tempos tem sido motivo de discussão, análise, estudo e pareceres é a diminuição da natalidade, que tem atingido números preocupantes e que poderá em meados do presente século colocar Portugal em graves dificuldades. Recentemente, o atual Governo criou uma comissão – mais uma – para estudar este assunto, que já produziu trabalho e apresentou conclusões, que passam desde a diminuição da taxa de IRS, consoante o número de filhos, por incentivos pecuniários e outros. Mas nem uma palavra foi dita sobre a criação de emprego e o abandono do País por parte dos jovens, como está a acontecer neste momento. Como se pode pedir aos jovens para constituírem família, terem filhos, se não lhes são criadas condições de acesso ao mercado de trabalho, obrigando-os a procurar, fora de portas, aquilo a que por direito deveriam ter em Portugal? Portugal tem neste momento, a nível europeu, uma das maiores taxas de desemprego jovem e que só não é mais alta porque um número elevado destes tem vindo a emigrar, perdendo o País a contribuição para o desenvolvimento de uma parte importante da população, a qual é, por acaso, a mais bem preparada academicamente, começando assim os jovens a sentir que não há para si, futuro no seu próprio País, pelo que deixamos aqui a pergunta: conseguirá algum país do mundo sobreviver sem uma geração jovem que acredite no seu futuro? Portugal continua a atravessar uma grave crise, que, começando por ser económica, rapidamente se tornou em social. Irracionalmente, Portugal, durante muitos anos, não manteve a despesa pública em zona de equilíbrio, criando desta forma as condições que puseram em causa o Estado Social, mesmo o próprio modelo social europeu. Mas o Estado não pode, em momentos de crise como a que atualmente atravessamos, abandonar os cidadãos à sua sorte. Não pedimos que o Estado se substitua à família e às diversas instituições que emanam da sociedade, mas também não pode ser um Estado liberal apático e insensível perante as desigualdades e as injustiças sociais com que somos confrontados todos os dias. Portugal tem futuro, mas nenhum povo pode sobreviver se não for capaz de encontrar no seu solo e na sua força de trabalho os recursos que lhe permitam sustentar-se.
Nota: Estávamos a terminar este artigo quando lemos num jornal que uma associação empresarial de Paços de Ferreira, de forma algo sarcástica e contundente, teria enviado convite ao presidente do Conselho de Administração do grupo sueco IKEA para visitar uma exposição que terá lugar nessa cidade, com a finalidade de, segundo o mesmo jornal, poder ver o que são “móveis a sério”, dizendo mesmo que estaria disponível para pagar a viagem, caso este não o pudesse fazer. Não sabemos se esta notícia corresponde à verdade. Sabemos que corresponde à verdade o IKEA ter três fábricas em Paços de Ferreira, que empregam 1.500 pessoas. Assim vai o nosso País!
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