Por Ângelo Henriques
(Artigo Publicado no Jornal Terras da Beira (Guarda) em 2018/10/11)
O preço das estadias no Algarve tem estado pela hora da morte, mesmo no aparthotel que nos tem recebido nos últimos 10 anos. E, deste modo, fomos passar parte dos dias de férias nas praias quentes e calmas da “Ilha Dourada”, descoberta por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira em 1418, um ano antes de terem aportado à Ilha da Madeira.
Colombo viveu aqui dois anos a preparar a viagem às Índias. Foi uma descoberta guiada e bem interessante que nos mostrou uma pequena Ilha de clima sempre ameno, de solo arenoso, mas com espetaculares paisagens e onde 9 Km de praias banhadas por águas cristalinas e coloridas de azul-turquesa, permitem reforçar a tranquilidade deste pequeno paraíso de tons dourados, nada semelhante às paisagens madeirenses.
A terra é habitada por gente hospitaleira, onde não há semáforos e deve dar gosto ser polícia e ser bombeiro.
A Ilha tem cerca de 5 mil habitantes durante o ano, mas o mês de Agosto faz desaguar mais 15 mil veraneantes que povoam os diversos hotéis à beira mar plantados, reforçando uma economia sazonal apenas baseada no turismo e onde, consequentemente, o desemprego no resto do ano é um facto, originando instabilidade económica e social. Daí que, os jovens saiam na busca de um refúgio que a terra mãe lhes nega (e não negou aos navegadores do Infante) enquanto esta apenas espera por eles no oitavo mês do ano.
Por um lado, se é evidente que a Madeira experimentou com Alberto Jardim uma valorização e embelezamento ímpares, onde se concentrou todo o investimento público e privado dos últimos 30 anos, constata-se, também, que esta Ilha não teve o mesmo governo ou, se foi o mesmo, o desprezo e o esquecimento a que foi votada são flagrantes. Torna-se especialmente notório na área turística que se encontra ainda “virgem”, adormecida, sendo manifesto o seu lugar de autêntico serventuário dos grandes grupos hoteleiros que a gerem como se de uma coutada se tratasse.
E na noite calma e prateada, saboreando um “Vinho De Porto Santo” (seco e generoso), amigos porto- santenses que amam a sua terra desfilaram ainda um ror de outras situações que os faz sentir, de corpo e alma, filhos de um deus menor, habite este no Funchal ou no Terreiro do Paço ou em ambos.
Tempos houve no século passado, em que os porto-santenses iam apostando nas suas pequenas indústrias mas, quais corsários de antanho, as gentes da Ilha da Madeira foram-se encarregando de as piratear, desativando-as e esvaziando-as, visando um centralismo exorbitante e a defesa de fortes interesses instalados na corte funchalense.
Eis as cinco indústrias já desaparecidas:
- Água Gaseificada (I); a Casa das Águas de Porto Santo à entrada de Vila Baleira, degrada-se e encontra-se sem destino certo;
- Cereal e com ele os moinhos que o moíam e que servem apenas de visita turística;
- Conservas, a indústria que mais emprego gerava em meados do século XX;
- Vinho;
- Cal (minas de extração de cal no Ilhéu do mesmo nome);
E do Funchal vem toda a subsistência da Ilha, inclusive a maioria do peixe (pesca submarina em Porto Santo só para consumo do próprio pescador). Os preços monopolistas e discriminatórios que os portosantenses pagam nas ligações marítimas para a Madeira e para o Continente são bem mais caros versus os “preços madeirenses” para as mesmas rotas, estes subsidiados pelo Governo Regional. A esta terra de ilhéus, onde o sol se põe sobre o mar e a terra se ilumina em cor de fogo, qual labareda do Espírito Santo, vamos voltar.
Até lá, esperamos e desejamos que, como escrevia o músico madeirense Vitor Sardinha no DN de 2014/08/13: “que as suas gentes avancem com gestos e iniciativas que enquadrem o destino de Porto Santo (a sua gente e cultura), num futuro coerente e solidário, diminuindo a dupla insularidade de quem lá vive”.
Nota: (I) A canção “Porto Santo”, composta e cantada por Max (1918/1980) que foi um grande sucesso no seu tempo, foi criada para promover na rádio as Águas de Porto Santo.