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Misericórdia

Misericórdia


Lima Reis (médico)


Misericórdia, palavra de origem latina, significa coração compassivo, isto é, capaz de sentir a dor de outrem como sua e agir em conformidade.


Houve tempo em que também nomeava um punhal que se usava à cintura para utilizar quando fosse caso de pôr termo ao sofrimento do adversário agónico após confronto. Uma espécie de eutanásia medieval, infligida com a maquinaria e as normas de procedimento vigentes, que ficou gravada na memória coletiva como golpe de misericórdia.


Hoje, num mundo de leis, regulamentos e seus criadores, é difícil agir com tal simplicidade e a eutanásia ativa ou passiva, o suicídio assistido, que é toma lá o punhal e avia-te, o testamento vital e outras variedades de como proceder para expirar, fazem a delícia dos legisladores e dos intérpretes do legislado. Morrer tornou-se muitíssimo mais complicado pelas normas legais do que pelas inerentes à fisiologia e fisiopatologia.


Vem isto a propósito de me ter lembrado de que num dia de urgência, das muitas que fiz, tinha então aproximadamente cinquenta anos menos, fui chamado ao internamento para assistir uma doente que, segundo a enfermeira, necessitava de assistência imediata.


Era verdade.


Quando entrei na enfermaria na cama junto à janela, estranhamente iluminada, ofegava banhada em suor uma mulher idosa. O soro, contido num frasco rebrilhante gotejava rápido através da veia.


Entrei, sentei-me a seu lado, tomei-lhe o pulso quase imperceptível e percebi no seu olhar que já não havia nada que a ligasse ao mundo. Apertei nas minhas as suas mãos geladas e fiquei a olhá-la para lá de nós.


De súbito a porta da enfermaria abriu-se, a graduada vestindo imaculada bata branca assomou de rompante, olhou-me uns segundos e perguntou com espanto em tom reprovativo:


- Que está você a fazer?!


Não me contive e assumi a responsabilidade.


- Estou à espera que a doente morra com dignidade.


E fiquei a olhá-la tentando adivinhar o que me teria para me dizer ou ordenar. Nada, esteve em silêncio segundos que me pareceram horas e saiu fechando a porta intempestivamente.


Eu fiquei sentado na beira da cama à espera do irreversível sem deixar-lhe a mão enquanto falava baixinho sobre melhoras. Os seus olhos, já de muito longe, fixavam os meus até que a respiração marulhante cessou.


Cerrei-lhe as pálpebras.


Suponho que, se fosse hoje, a minha orientadora de estágio diria que eu acabara de praticar ortotanásia porque é sempre bom dar às coisas um nome sonante.

     
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