Por Sílvio Martins
Freixo solitário, secular gigante,
Que ergues os teus braços, tão cansados já,
Para o céu azul e puro, mas distante,
Numa prece muda que não chega lá.
A macia relva que ao redor vegeta,
Já deliciou muitos namorados…
Anda o deus Cupido de carcás e seta,
A brincar de amor sobre os teus relvados!
Em tua ramagem sempre as primaveras
Esconderam ninhos d’ aves indefesas
Que guardado tens, desde antigas eras,
De olhos predadores procurando presas.
Sob a tua copa, densa e refrescante,
Por estios secos de calor ardente,
Sempre o fatigado, lasso viajante,
Encontrou abrigo contra o sol fulgente!
Nas calmosas noites, ao luar de Agosto,
Rudes camponeses vês passar suados,
Erguem para o céu o seu sereno rosto,
Onde a lua tece fios prateados.
Já testemunhaste longas invernias,
Em que feros lobos, magros e esfaimados,
Vão em alcateia, pelas penedias,
Procurar o gado junto aos povoados.
E o pastor temendo pelo seu rebanho,
Frente faz às feras, açulando os cães.
Há terror na noite, que já vem de antanho,
Porque os lobos comem cordeiros e mães.
Se memória guardas - dentro em lenho fundo - ,
Desse abismo turvo dos passados dias
E se tu abrisses livro assim ao mundo…
Ancião vetusto, quanto lhe dirias!