Aproxima-se, a passos largos, o verão. Com as eleições legislativas e presidenciais à porta e com um clima social cada vez mais agitado, adivinha-se que as temperaturas atinjam, em breve, valores máximos.
Sobre este assunto, confesso que não espero nada de bom nos próximos meses. Para além da habitual excitação e frenesim dos partidos políticos, vamos assistir a análises de comentadores, pseudo intelectuais e independentes, mas que, no fundo, não passam, na sua esmagadora maioria, de papagaios adestrados, alinhados com os seus próprios benefícios, a olhar para o seu umbigo e a pensar no seu futuro…
Estou cansado (e o verão quente ainda nem chegou…) de ver e ouvir estes protagonistas a debitar “rigorosas” análises, sobre isto e sobre aquilo, afinal sobre tudo, ou quase tudo, como se fossem donos do saber e do conhecimento, passando-nos, tantas e tantas vezes, verdadeiros atestados de ignorância.
Era, no mínimo, curioso, “rebobinar” algumas das suas sábias análises do passado e confrontá-las com a realidade.
Não há paciência!
Admito que fui perdendo, ao longo dos tempos, a confiança na generalidade dos políticos. Longe, muito longe, vão os tempos (e já nem falo do 25 de Abril e da Revolução em que era um ingénuo adolescente) em que cega e inconscientemente defendia a classe política e acreditava num futuro radioso para a democracia portuguesa.
Reconheço que posso estar a exagerar, até porque, como é óbvio, nem todos se movem por obscuros interesses…
A generalização é, sempre, uma visão perigosa e redutora e tomar uma parte pelo todo é, para além de incorreto, profundamente injusto, mas este crescente sentimento de dúvida e de suspeita quanto às promessas e boas intenções dos diversos atores políticos é algo do qual não me consigo libertar.
Claro que quando falo de políticos me estou a referir aos profissionais da política, ou seja, aos que vivem à custa dos partidos e das suas máquinas partidárias. Aos que se situam conforme lhes é ou não conveniente no atual xadrez político, tendo como móbil, tão-somente, a manutenção ou a ascensão no aparelho partidário ou do poder.
São estes que dão uma imagem deprimente e degradante dos partidos políticos, que contribuem para o seu descrédito, para o clientelismo profissional e para um cada vez maior e mais acentuado divórcio existente entre governantes e governados. Mas, sejamos claros, todos, de alguma forma, somos políticos. Cada um de nós, individualmente ou em grupo, é chamado a participar no debate, nos processos de escolha, bem como a tomar decisões, aos mais diversos níveis, que afetam a nossa vida e o nosso dia-a-dia em comunidade.
Ao invés de nos remetermos a um cómodo silêncio ou a uma doentia e perigosa passividade que pode condicionar, em termos absolutos e definitivos, o nosso futuro, temos o direito e a responsabilidade de não deixarmos que a lógica da promiscuidade, do interesse duvidoso e da opacidade dominante, existente nos partidos e nas grandes organizações, acabe por prevalecer.
Daí, manifestar, publicamente, a minha preocupação sobre dois temas que julgo pertinentes e atuais.
Enquanto cidadão e dirigente sindical do SBN, preocupa-me a falta de participação e intervenção de alguns setores da sociedade civil no processo de justiça social e laboral. Nas atuais sociedades, percorridas por múltiplos interesses e atravessadas por uma cadeia multiforme de atores, a lógica da interdependência e da solidariedade deve vingar sobre o egoísmo e a conflitualidade dos interesses setoriais ou pessoais.
Preocupa-me, de igual forma, até porque estamos em período pré eleitoral, a ausência de discussão e debate, nomeadamente por parte dos chamados “partidos do arco do poder”, de um tema controverso, sem dúvida, mas incontornável, a Regionalização.
Sobre estes assuntos voltarei mais tarde…
Paulo Coutinho