O vento que passa guarda
A memória dos seus ais,
Quando, em surdina, os soltava
À noite nos pinheirais;
Mas não sabe que passou
Um monstro cuspindo fogo
Sobre as árvores de então
E nos terrenos desnudos
Mora agora a solidão
Tolhida de espantos mudos,
Onde se perdem os sons
E a Vida não se revê.
Hoje o vento que corre
Sobre o terreno maninho,
Olha a desgraça e não crê
Estar no mesmo caminho
Onde sempre suspirou
Mágoas que não eram suas,
Mas que alguém lhe confiou.
Anda à roda, sem sentido,
Numa busca angustiada,
Pois julga ter-se perdido
Nas trevas de noite má,
E chora a sua desdita
Sobre a terra calcinada,
Improdutiva e maldita
Dos pinheirais que não há.
Sílvio Martins