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Diretora do SBN acaba de lançar-se no mundo editorial

Susana Nogueira é um dos elementos da Direção do SBN, integrando o pelouro da Informação e Formação. Licenciada em Filosofia, entrou para os quadros do BCP em 1996, onde se manteve até ter aceitado o desafio para integrar a lista vencedora das mais recentes eleições no sindicato. Há bem pouco tempo, lançou-se na vida editorial. Aqui fica a conversa a propósito registada com a Nortada.


N. O sindicato absorve-lhe o tempo todo?
SN. Também invisto muito tempo a estudar. Sou muito curiosa. Gosto de conhecer e de refletir sobre variadíssimos temas de diferentes áreas. E tenho uma família que adoro, vital para a minha felicidade, mas cujas necessidades absorvo como uma esponja. E são tantas! Ao longo do dia, vou desempenhando os meus vários papéis: filha, mãe, irmã, amiga, mulher, sindicalista, dona de casa

N. Então como conseguiu escrever o livro?
SN. Escrevi esta história num momento difícil da minha vida, talvez fruto de uma dolorosa consciencialização da crise que uns vivem e sentem na pele e a que outros apenas assistem impávida e serenamente A minha filosofia de vida diverge muito do materialismo que impera atualmente. Os meus valores são outros

N. Editou recentemente um romance. Qual o título? De que trata?
SN. “Conta-me a Verdade” é o título do romance que escrevi, editado pela Chiado. O livro, de certo modo, sugere um denominador comum aos diferentes quadros de vida retratados: a existência de segredos e de situações mais sombrias e obscuras, geradoras de tensão e de suspense, enquanto se não fez a luz Há muitos cenários, muitas personagens a revelar inusitados lados lunares, que tanto se aproximam como se digladiam, encontros e desencontros, bastante movimento, e não só circular, algumas pinceladas de história sobre sítios e situações, executadas de forma muito leve, a fugir para o sonho, ironicamente como na vida real e com gente a sério

N. Já agora, não quer levantar-nos o véu sobre o enredo?
SN. Bem, já que falei em suspense, não vou agora expor os conteúdos. (risos) Para isso existe o livro e, se o lerem, existirá a vossa própria verdade sobre o que aqui sugeri.

N. Diga-nos então o que a motivou a escrever o livro, quais os principais obstáculos que encontrou, se ficou satisfeita com o resultado e se está a pensar em lançar mãos a novo cometimento desta natureza
SN. Escrevi o livro porque adoro contar histórias, ser uma guia da imaginação, levar as pessoas aos cenários que crio, tocar-lhes na emoção. Gosto mesmo muito de criar e só não produzo mais porque normalmente não disponho do tempo necessário para parar e dar asas à imaginação. Presentemente, como sabe, desempenho o cargo de dirigente sindical, o que me obriga a estar sempre disponível para as causas que em boa hora abracei, cujas exigências têm aumentado drasticamente em face do atual contexto.

N. Sente-se inconformada com o mundo?
SN. Vou explicar melhor: a precariedade, a desonestidade, a falta de palavra e de respeito são cada vez mais lamentavelmente “normais”, e talvez até toleradas, nas sociedades de hoje. Haverá alguém satisfeito no mundo? Não parece.

N. Como carateriza a vivência no mundo de hoje?
SN. Vivemos no primado da insatisfação, embora, se bem doseada, nos possa ajudar a evoluir. O que não deve é ignorar o valor que devemos dar às pequenas mas importantes coisas da vida. O que não deve é desprezar os afetos. N. E essas situações têm a ver com o livro? SN. Sim, de certo modo, o livro também se debruça sobre estas problemáticas tão comezinhas quanto humanas. Será bom dizer, contudo, que não coloco a fasquia alta, porque, para além de ter sido o meu primeiro livro, ou talvez em parte em resultado disso mesmo, tenho noção das suas limitações. Tenho um grande caminho de aprendizagem pela frente

N. Mas há sempre uma primeira vez
SN. Claro que em todo o caso o primeiro passo está dado e que o prazer que me deu foi inegável. Seja como for, é muito importante para mim saber se a história que criei constituiu para o leitor um momento de lazer, de diversão, de conhecimento ou de reflexão. Mas na minha mente todos os dias fervilham histórias, cada estímulo da vida real afigura-se como uma inspiração para uma história seguinte. Concordo com Sartre quando diz que “ Um homem é sempre um contador de histórias. Ele vê tudo o que lhe acontece através delas. E tenta viver a sua vida como se estivesse a contar uma história”.

N. Posso deduzir que o futuro próximo nos vai trazer um novo livro seu?
SN. Ah, quanto ao futuro, pois, não sei. Alguém saberá? Aliás, muito mais porque tenho outros interesses fortes no mundo das artes. Adoro música, pintura, teatro. A escrita é uma das minhas paixões, mas não a única.

N. Como dirigente do segundo maior sindicato português, como entende o papel que os sindicatos podem ou devem ter na sociedade contemporânea?
SN. Todos sabemos que, ao longo da história, o papel dos sindicatos foi crucial para a criação de alguma qualidade de vida no mundo laboral. A sintonia de interesses (na relação capital/trabalho) não só ainda não se verifica como é muito notória a sua discrepância em empresas que não procuram adaptar-se à evolução dos tempos, no que respeita ao conhecimento do comportamento humano, descurando, constantemente, fatores determinantes para o sucesso de uma empresa, como, por exemplo, o fator motivação. Se nos dedicarmos a estudar a filosofia das empresas com maior rentabilidade e sucesso, verificamos que estas são as que apostam no respeito pelos trabalhadores, que, aliás, designam por colaboradores. Esta terminologia já faz a diferença! São estas instituições que, continuamente, se preocupam em criar estratégias conducentes ao desenvolvimento, em diferentes níveis, dos colaboradores, potenciando, assim, um melhor desempenho dos funcionários, a quem devem tratar como seres humanos em evolução e não como números

N. Como define então o papel dos sindicatos?
SN. Os sindicatos são os mediadores perfeitos entre o patronato e os trabalhadores e, porque foram legitimamente investidos por estes para lutar pelos seus legítimos interesses, que são também os seus, estão preparados para sensibilizar as entidades patronais no que respeita à análise de matérias, de diferentes naturezas e complexidade, relacionadas com a organização do trabalho e com as necessidades dos trabalhadores, as quais conhecem bem, assim como para tentar resolver situações que requerem uma mediação eficaz e bem fundamentada. Com efeito, os sindicalistas lidam com realidades que, embora possam ser diferentes ou mesmo divergentes, dependem umas das outras. E é preciso relevar isso: o patronato precisa de trabalhadores motivados e eficientes, e os trabalhadores de uma remuneração justa e consentânea com o seu esforço e dedicação e de condições que propiciem e alimentem a sua motivação.

N. Face aos desafios de natureza social e económica, considera que os sindicatos poderão vir a ser fortalecidos ou enfraquecidos num futuro próximo?
SN. Bem! Vou aventurar-me a falar do futuro. Muitas vezes, o futuro revela-se diferente das nossas previsões, outras vezes é o resultado perfeito de um esquema lógico-dedutivo. No meu ponto de vista, estamos a caminhar a passos largos para um abismo social, para desigualdades profundas, o que me parece um paradoxo face ao desenvolvimento tecnológico a que todos assistimos. As grandes mudanças no mundo laboral ocorreram aquando das grandes revoluções industriais. Foi a partir de então que os trabalhadores se começaram a organizar e a unir esforços para criar os seus direitos. É preciso compreender que os sindicatos têm poderes limitados, não podem ir além do que está previsto na lei. Mas, na minha opinião, a lei deverá adaptar-se ao nascimento de uma nova era. Ou seja, a um mundo cada vez mais global, mais industrializado, mais robotizado e mais informatizado. Um mundo, ao que parece, mais egoísta, onde impera a distribuição desequilibrada do capital e a hegemonia do lucro. Assistimos a um aumento do número de desempregados, o que provoca um rol nefasto de consequências de várias ordens. Pessoas reais sem trabalho, substituídas por máquinas e por realidades virtuais!

N. Qual o balanço que faz, neste tempo de dirigente sindical, do seu relacionamento com os associados?
SN. Ao longo destes dois anos no sindicato, através do contacto permanente que tenho estabelecido com os bancários, apercebi-me de que muitos deles não têm a real noção do trabalho que aqui é desenvolvido e das vitórias que vamos somando. A força do sindicato advém também da força dos associados. Considero que os sindicatos poderão, ou melhor, deverão, ser fortalecidos pelos associados, porque não existe outro canal de mediação que permita a defesa e a conquista de direitos e a luta cerrada contra a desumanização e a transformação do ser humano num número passivo. Mas felizmente que o sindicato conta com excelentes especialistas de direito laboral, já com provas dadas, assim como com um corpo de profissionais empenhados que, dia a dia, dão o seu melhor com o objetivo de satisfazer os interesses e as necessidades dos associados.

N. Qual o conselho que aqui deixaria aos associados, para uma mais eficaz prossecução dessa luta?
SN. A sugestão que dou a todos os trabalhadores é que trabalhem o melhor que souberem, com o máximo de profissionalismo, mas que nunca se esqueçam dos merecidos direitos, do seu valor e de preservarem sempre a dignidade. Lidamos com realidades interligadas entre si e é preciso relevar isso. O patronato precisa de trabalhadores motivados e eficientes e estes precisam de uma missão, de uma visão e de valores que justifiquem e que dignifiquem o seu trabalho no seio da sociedade e que lhes dê a justa retribuição por isso. É preciso sintonizar, na justa medida, estas duas entidades (patrão e trabalhador), assente na consciencialização dos verdadeiros interesses de ambos e no que ambos têm a ganhar nesse almejado equilíbrio de forças e de esforços. A meu ver, será melhor o binómio do que o antónimo!

N. Considera que estão já preenchidos os preceitos constitucionais que apontam para uma igualdade de direitos da mulher face ao homem nos diversos domínios da vida em sociedade, designadamente no que respeita ao mundo do trabalho?
SN. A mim parece-se inegável que sobre esta problemática houve uma grande evolução em matéria legislativa, em muito graças ao esforço dos sindicatos, no que toca a direitos das mulheres trabalhadoras. No entanto, parece-me que há ainda muito a fazer a este nível. Acredito que em resultado do “inverno demográfico” e das baixas taxas de natalidade e de fecundidade, venham a ser implementadas mais medidas que beneficiem especialmente a mulher trabalhadora, como sucede em alguns países ditos desenvolvidos, de modo a libertá-la para outras funções que têm sido descuradas na sociedade. Digamos que as circunstâncias vão obrigar a implementar medidas mais favoráveis ao desempenho de certos papéis.

N. E se for assim fica tudo feito?
SN. Não! Ainda há muito trabalho de sensibilização para realizar, em matéria de diferenças de género, no trabalho e na sociedade em geral. Visto que as diferenças que ainda vigoram assentam em estruturas mentais e culturais, as mudanças mais profundas ocorrem de forma mais lenta e, embora possam ser pressionadas pela lei, a verdade é que muitas delas não vão acontecer por decreto. No que respeita ao mundo do trabalho, o que se verifica é que os cargos executivos e de topo ainda são maioritariamente masculinos.

N. Qual a sua opinião, quanto a essa questão?
SN. Considero que isto nos remete para a tal problemática cultural e para a organização social que, tantas vezes, no Portugal profundo, se sobrepõe à legislação vigente. No “mundo real”, há ainda muito obscurantismo a desdizer o “mundo do papel”, a mostrar o que separa os verbos dever de poder ou fazer. E por isso é tão importante o papel do sindicato nesta análise, na denúncia de irregularidades e de injustiças e na mudança que se impõe, em prol da igualdade de direitos, independentemente do género.

N. Esta será apenas uma questão do domínio do Direito? Ou perpassa também pela Justiça, pela Economia?...
SN. Na resposta anterior já aludo a esta questão. Sem naturalmente descurar o importante papel da Justiça e do Direito, que deverá ainda ir mais longe, reforço a importância da questão cultural e de mentalidades. A meu ver, a mudança de paradigma passará muito pelas escolas. É a educação que melhor trabalha as mudanças estruturais. Operando a mudança em cada aluno, em cada célula, até atingir o tecido social no seu todo. Numa sociedade tradicional e envelhecida como a nossa (com predominância de gerações mais velhas), este entendimento não é uniforme e está longe de gerar consenso. Para muitos, o lugar da mulher ainda devia ser em casa, a tomar conta dos filhos... Portanto, para que a mudança se desenvolva e se aprofunde em qualidade e em quantidade, devem concorrer diferentes fatores, em diferentes áreas de intervenção social, cultural e política.



     
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