COMISSÃO SINDICAL DE EMPRESA DO MBCP (NORTE)
Cristina Miranda (coordenadora), Helena Simões e Albano Moreira são três dos membros do Secretariado da Comissão Sindical de Empresa (norte) do Millennium bcp. Em entrevista à nossa revista, caraterizam uma situação francamente desfavorável aos trabalhadores daquela instituição.
P. Como caraterizam a atual situação vivida na vossa instituição de crédito?
R. É bastante complexa, aliás na linha da generalidade da banca em Portugal. Desde logo, os direitos dos trabalhadores têm sido muito cortados e por isso a conjuntura não é favorável à força do trabalho. Para além disso, no BCP também é francamente má, porque tem havido muitas alterações…
P. Que tipo de alterações?
R. Tantas!... Muitas pessoas que são mandadas embora, muitas rescisões ditas por mútuo acordo, retiradas de isenções de horários, deslocalizações de pessoas para longe dos seus locais de residência – com enormes custos quer financeiros quer familiares –, colegas que foram mudados do serviço central para outros serviços sem qualquer explicação e colocados em categorias profissionais que praticamente já não existiam –, pessoas que não estão a ser tratadas de acordo com as suas categorias e os seus níveis…
P. Entretanto, não há novas contratações…
R. Claro que há! Mas sempre a prazo, com toda a confusão que isso gera… Acabam por não ser especialistas em nada. Nesses esquemas, as empresas de outsourcing vão cedendo pessoas a prazo, não lhes permitindo qualquer tipo de especialização.
P. Deduzo que são trabalhadores sem grandes qualificações…
R. Isso não corresponde inteiramente à verdade. Ou, pelo menos, nem sempre é verdade, porque alguns são altamente especializados. Só que acabam é por não serem especializados pelo banco, o que sempre introduz muitos fatores de discriminação e muita confusão…P. Sendo assim, como é o cotidiano de um trabalhador do MBCP? R. Sempre em sobre-esforço para fazer o melhor possível, o que ainda é mais gritante nas sucursais. E também se nota um ambiente de medo. Sobretudo medo de falar, porque as pessoas – o que é compreensível – têm uma necessidade absoluta de preservar o posto de trabalho. Mas todos estão a fazer um esforço enorme para se suplantarem.
P. Apesar disso, sentem alguma estabilidade?
R. Estabilidade? Não, não está fácil, também devido à instabilidade geral. E o pior é que tudo isso prejudica muito a saúde, já que os trabalhadores estão a laborar em situações extremas. Depois, há outros, muito qualificados e que, afinal, se veem substituídos por estagiários, os quais têm de ser ensinados.
P. E quais são as reações que essas situações suscitam?
R. De uma enorme injustiça, está bem de ver! E, como referimos, há colegas que, submetidos a pressões de tal forma intensas sem terem possibilidade de reação, já adoeceram com maior ou menor gravidade. Por outro lado, veja lá que até existe uma secção – mais concretamente a de Recuperação de Baixos Montantes – que é composta por pessoas malquistas pela hierarquia, como se fosse um gueto, designadamente por terem recusado propostas de rescisão ditas por mútuo acordo!
P. Consideram, assim, que há alguma pressão?
R. Alguma é favor! O que há é uma enorme pressão diária! Dá a sensação que eles julgam que pressionando assim as pessoas elas mais tarde ou mais cedo se iriam embora. Mas o que aconteceu foi que todas elas acabaram por fazer um esforço muito grande e, suplantando toda a instabilidade que lhes é permanente criada, resistiram, continuam a resistir e continuarão a resistir!
P. Que tipo de defesa podem oferecer?
R. Nestes, como em outros casos, temos recorrido várias vezes para a Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT), quer através do SBN quer individualmente e, tanto quanto sabemos, o banco tem sido condenado ao pagamento de diversas coimas. Claro que depois sofremos as consequências e sofremos pressões individuais por termos utilizado os meios que a lei põe à nossa disposição para nos defendermos. Mas, mesmo assim, estamos a ter sucesso!
P. Mas agora a situação interna já está um pouco mais calma?
R. Nem por isso. Todos os meses continua a haver trabalhadores que são chamados para rescisões e reformas. Ninguém quer aceitar, mas alguns acabam por ceder, porque consideram que do mal o menos e receiam que o futuro no banco lhes traga situações ainda piores. Há pessoas que nem conseguem dormir! E existe muita revolta instalada, sem que deixe de haver uma resistência quase heroica, roçando um autêntico estoicismo, no combate às injustiças.
P. Quando tentam resolver os problemas pela via do diálogo, o que é que acontece?
R. Já chegamos à conclusão que isso é muito difícil, perdão, que é impossível. De facto, só se consegue falar com o banco quando se faz queixa, ou através do SBN ou da ACT. De facto, o que acontece é que, para além de estarmos a pagar a crise em sede de IRS, também a pagamos em sede de carga salarial, porque continuamos a vê-la significativamente reduzida.
P. Não vos aconteceu sentirem que há um ponto de não retorno?
R. O que acontece é que as pessoas têm uma força incomensurável. Mesmo assim conseguem continuar a trabalhar, a suplantar as dificuldades e a resistir, apesar de todos os problemas que lhes colocam e do medo que enfrentam. Bem vê que, no fundo, o banco para nós é a nossa segunda casa… P. E o que pensam relativamente à situação do MBCP? R. Normalmente, para o melhor e para o pior, o MBCP acaba por ser pioneiro na banca portuguesa, quer nas coisas boas quer nas coisas más. Mas, relativamente à força de trabalho, está a tratá-la muito mal. Deixou que, além da crise económica, se tivesse instalado uma crise de valores…
P. Podem especificar essa afirmação?
R. É que se as empresas dão lucro, isso se deve às pessoas. Os computadores não trabalham sozinhos… Isto não pode ser uma selva, no pior sentido que uma selva tem. Se os trabalhadores são mal remunerados, se não têm dinheiro, não podem investir na economia… P. Há momentos estavam a começar a falar nos problemas que afetam os trabalhadores do banco. Mas acabaram por não concretizar…
R. Para além do que já enunciamos, uma das questões mais gritantes prende-se, inquestionavelmente, com o excesso de trabalho e com as imensas horas extraordinárias que fazemos sem a legal e devida remuneração. Por outro lado, assiste-se a uma enorme pressão para o cumprimento de objetivos de facto inatingíveis, porque os clientes não têm manifestamente dinheiro para adquirirem os produtos que o banco quer que os trabalhadores lhes vendam. Uma outra situação é a escassez de trabalhadores nas sucursais, o que leva a um excesso de esforço de quem lá está. No fundo, toda a gente acaba por se sentir injustiçada, porque a vida deles foi sempre no banco e agora sentem-se tristes pelo menosprezo a que são votados.
P. Também a questão do outsourcing não foi completada…
R. Quanto aos outsoucers e aos estagiários, muitos deles trabalham bem. Só que, quando começam a dominar o trabalho que lhes é cometido no banco, são mudados de área, contra a sua própria vontade. É por isso que muitos deles acabam por não aceitar renovar o contrato, uma vez que não lhes é garantida qualquer solução com um mínimo de estabilidade que lhes proporcione encarar a possibilidade de constituir uma família, ter uma casa e assim por diante. Não imagina a quantidade deles que acaba por emigrar! De facto, não temos um país em guerra, aqui não caem bombas, mas isto são verdadeiras bombas sobre a sociedade e sobre os nossos jovens. Aliás, seria muito interessante saber-se quem são os donos dessas empresas de outsourcing... Se calhar acabaríamos por ter surpresas muito reveladoras…
P. E quanto ao futuro?
R. A nossa esperança é que a situação do banco se estabilize. Ou, pelo menos, que não piore. Que os gestores façam bem o seu trabalho, para bem do banco, dos trabalhadores da instituição e do país. Porque gerir contas qualquer um faz. Isto não é uma guerra pessoal. Só se exige que quem gere, gira bem. Porque quem trabalha, trabalha bem… E da parte dos trabalhadores bancários nota- -se uma grande boa vontade e um enorme espírito de colaboração, com grande esforço pessoal e familiar. O que se espera é a devida contrapartida por parte dos gestores e dos administradores. O que é curioso é que os trabalhadores do BCP consideram que conseguem sempre ultrapassar cada obstáculo com que são confrontados. Vivem no fio na navalha. Caem e levantam-se. Esforçam-se para cumprir objetivos e recebem como prémio desconsiderações e afrontas que se repercutem negativamente sob o ponto de vista salarial e que são a subversão da meritocracia.