Os trabalhadores “não puxam carroças”
Pagam o resgate dos bancos e criam os lucros
A FEBASE reage com profunda indignação às declarações proferidas por vários banqueiros na conferência organizada pelo Jornal de Negócios. Em plena negociação da reforma laboral, responsáveis do BPI, BCP, CGD e Santander afirmaram que “há gente nas empresas que não puxa a carroça” e que “a lei protege quem não quer fazer nada”, qualificando alguns trabalhadores como pessoas que “não puxam a carroça” e “não querem fazer nada”, subentendendo que todos os restantes são, afinal, meros puxadores de carroça. Este discurso é ofensivo, injusto e politicamente perigoso. E, mesmo que não existisse mais nenhuma razão para a Greve Geral de 11 de dezembro, esta demonstração de desprezo pelos trabalhadores portugueses seria, por si só, motivo mais do que suficiente para a mobilização.
Antes de mais, convém recordar um facto essencial que alguns dirigentes parecem querer apagar da memória coletiva: desde 2007/08, o Estado português mobilizou mais de 23,8 mil milhões de euros para estabilizar o sistema financeiro, através de recapitalizações, garantias públicas, resoluções, nacionalizações e empréstimos ao Fundo de Resolução. Estes valores, amplamente confirmados pelo Banco de Portugal, Tribunal de Contas e comunicação social, traduzem um esforço público gigantesco.
Quem resgatou a banca não foram os banqueiros; não arriscaram património pessoal, nem suportaram os prejuízos decorrentes de anos de má gestão e decisões irresponsáveis. Foram os contribuintes, e foram, em particular, os trabalhadores, que suportaram austeridade, cortes salariais e aumento de impostos enquanto o Estado impedia o colapso de instituições financeiras. É por isso profundamente ofensivo que dirigentes venham agora insinuar que são os trabalhadores que “não puxam a carroça”. A inversão moral é total.
Não menos relevante é o facto de que os bancos presentes nesta conferência, BPI, BCP, CGD e Santander, beneficiaram diretamente de cerca de nove mil milhões de euros em apoios públicos. Estes mecanismos de estabilização permitiram-lhes atravessar crises, evitar colapsos e preservar posições no mercado. Enquanto estes apoios protegiam o setor financeiro, os trabalhadores enfrentavam cortes nos ordenados, perda de poder de compra e carreiras congeladas. Fizeram sacrifícios reais, não abstratos; pagaram com o seu rendimento aquilo que a banca não conseguiu pagar com a sua própria responsabilidade.
Por isso, é moralmente inadmissível que instituições salvas repetidamente com dinheiro público se permitam agora insultar quem sustentou o país durante os momentos mais difíceis. Foram os trabalhadores, e não a banca, que enfrentaram precariedade, austeridade e salários estagnados; foram os trabalhadores que mantiveram hospitais, escolas, empresas e serviços a funcionar. Nunca nenhum trabalhador deste país foi resgatado com fundos públicos. A banca foi, e mais do que uma vez.
Quando ouvimos dirigentes bancários falar em “flexibilidade”, sabemos bem o que está em causa: facilitar despedimentos, aumentar precariedade, reduzir proteção laboral e pressionar salários para baixo. Tudo isto num país que já apresenta uma das taxas de precariedade mais elevadas da OCDE. Esta retórica não é modernização: é retrocesso social.
E quando se invoca a Suíça como exemplo, trata-se de uma manipulação evidente. Na Suíça, os salários são muito mais elevados, a proteção social é robusta e a força sindical é incomparavelmente maior. Usar este país como referência sem mencionar estas diferenças é enganar deliberadamente a opinião pública para justificar mudanças regressivas na legislação laboral portuguesa.
Os trabalhadores portugueses não são puxadores de carroça. São profissionais qualificados que sustentam a economia real todos os dias, enquanto o setor financeiro foi, repetidamente, sustentado pelo Estado.
Setor financeiro que apresenta lucros recorde, só possível pelo empenhamento, profissionalismo e dedicação dos trabalhadores, esses mesmos que os banqueiros tão levianamente ofendem com as suas declarações públicas.
A FEBASE exige respeito, dignidade e verdade no debate público, e reafirma a importância da Greve Geral de 11 de dezembro como resposta firme às tentativas de desvalorizar aqueles que fazem o país avançar, mesmo quando a banca não esteve à altura das suas responsabilidades.
As Direções
20/11/25
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